O Brasil, infelizmente, tem uma grande tolerância à utilização de bebidas alcoólicas, muitas vezes tratadas como parte de nossa "cultura" e celebradas sem maiores restrições. Festas universitárias, onde o álcool flui de maneira descontrolada e as drogas ilícitas são frequentemente consumidas sem o menor pudor, se tornaram eventos comuns, sem que haja um questionamento mais profundo sobre os impactos disso. No entanto, o que é ainda mais alarmante é quando essas festas são realizadas em cursos da saúde — cursos que formam profissionais cuja missão é justamente promover a saúde e o bem-estar da população.
É difícil compreender como futuros profissionais da saúde, que passam boa parte de seus anos de graduação estudando os efeitos devastadores de substâncias como o álcool, drogas ilícitas e o tabaco, possam se engajar em comportamentos tão contraditórios e irresponsáveis. Estudos científicos são claros sobre os danos causados pelo consumo excessivo de álcool e pelas drogas, e os alunos desses cursos, mais do que ninguém, deveriam ser os primeiros a condenar tais comportamentos. O comportamento do "faz o que eu digo, mas não o que eu faço" é um reflexo de um grave problema educacional e de valores dentro da academia brasileira.
Universidades são, em teoria, lugares que formam cidadãos críticos e responsáveis, capazes de olhar para as questões sociais e de saúde pública com um olhar atento e consciente. Ao permitir e, em alguns casos, até incentivar comportamentos autodestrutivos como o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e drogas em festas universitárias, a instituição não apenas falha em seu papel educacional, mas também transmite uma mensagem perigosa para a sociedade.
Além disso, não podemos ignorar o impacto que tais práticas podem ter no futuro desses estudantes. Profissionais que participam de comportamentos de risco e exibem comportamentos autodestrutivos podem se tornar, ao longo do tempo, incapazes de aconselhar seus pacientes de maneira eficaz, se tornando, eles próprios, vítimas daquilo que estudam. Isso gera um ciclo de hipocrisia e autoengano.
É preciso um debate sério sobre as festas universitárias
O Brasil precisa, urgentemente, de um debate mais sério sobre o papel das universidades na formação de seus alunos, especialmente nos cursos de saúde. De nada adianta formar profissionais altamente qualificados, se eles são incapazes de aplicar os conhecimentos adquiridos em suas próprias vidas. As universidades precisam criar ambientes mais saudáveis e responsáveis, onde os estudantes possam se divertir sem comprometer sua saúde ou os valores éticos e profissionais que serão exigidos deles no futuro.
Além disso, as festas universitárias devem ser repensadas. Se o propósito das festividades é, de fato, proporcionar momentos de descontração, isso pode e deve ser feito sem a necessidade do consumo de substâncias que comprometem a saúde. Universidades e estudantes devem ser aliados no combate ao consumo de álcool e drogas, não cúmplices de sua banalização.
É hora de quebrar a hipocrisia. A comunidade acadêmica de saúde precisa ser mais responsável. As festas universitárias, especialmente aquelas realizadas por estudantes de cursos da área da saúde, devem ser oportunidades de celebrar de maneira saudável e consciente, sem a necessidade de recorrer a comportamentos que vão contra os princípios que esses profissionais juram seguir. O Brasil, e a sociedade como um todo, merece mais seriedade de seus futuros médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde. Afinal, como pode um médico aconselhar seus pacientes a evitarem o consumo de substâncias prejudiciais, se ele próprio participa de festas onde essas práticas são toleradas e até incentivadas?
A mudança começa nas universidades. E ela deve começar agora.