A migração de conteúdos para plataformas digitais, a substituição de aulas presenciais por videoaulas e a exigência de conectividade constante criaram um novo tipo de barreira: a exclusão por conexão. Estudantes sem dispositivos adequados, sem internet estável ou sem um ambiente doméstico propício ao estudo veem-se, na prática, fora do sistema. A suposta “igualdade de acesso” se desfaz diante das desigualdades materiais.
A promessa de que a tecnologia nivelaria oportunidades tornou-se um álibi para cortes em políticas de assistência estudantil e para o esvaziamento da escola enquanto espaço físico, comunitário e afetivo. Em nome da inovação, transferiu-se a responsabilidade do aprendizado para o indivíduo — como se todos tivessem as mesmas condições para responder a essa nova lógica. A meritocracia digital substitui a justiça social.
Esse cenário é agravado quando o discurso oficial inverte responsabilidades: ao invés de garantir estrutura para todos, insinua-se que quem não acompanha o ritmo tecnológico é desinteressado ou preguiçoso. Ignora-se que muitos que querem estudar são impedidos pela precariedade, não pela falta de vontade. O sistema pune quem mais precisa dele.
Ao mesmo tempo, a valorização crescente de cursos pagos, plataformas privadas e certificações digitais cria um fosso entre os que podem investir em sua formação e os que dependem exclusivamente do ensino público. A educação, um direito fundamental, torna-se um privilégio mediado por senha e banda larga.
Nesse paradoxo cruel, a chamada inclusão digital não apenas falha em combater desigualdades históricas, como as aprofunda. Ela permite que alguns avancem, mas não estende a mão a todos. Enquanto isso, perpetua-se a lógica de que, para garantir o próprio direito de estudar, é preciso aceitar que outros tenham esse mesmo direito negado. Uma inclusão que exclui é, antes de tudo, uma política de abandono.