Cidades: Maringá Marketing da morte?
Arte no Hospital Universitário de Maringá que Gerou Críticas e Levantou Questionamentos Sobre o SUS
Lugar da Estética no Espaço Público Cria Entendimento Ambíguo
07/07/2025 18h00 Atualizada há 1 ano
Por: Opinião, crítica e análise

No Hospital Universitário da Universidade Estadual de Maringá (HU-UEM), uma intervenção artística chamou atenção — e causou polêmica. Uma imagem de asas foi instalada em uma das paredes internas, num estilo já conhecido de pontos turísticos e espaços de lazer, onde visitantes podem tirar fotos como se estivessem alados. O que poderia parecer uma simples tentativa de humanizar o ambiente hospitalar gerou reações negativas intensas nas redes sociais e, especialmente, em grupos de WhatsApp da comunidade local.

A escolha do símbolo — asas — em um ambiente que lida diariamente com o limite entre a vida e a morte, não passou despercebida. A ambiguidade da imagem, ao invés de inspirar leveza ou esperança, foi rapidamente associada à ideia de morte, especialmente por estar em um hospital público. Para muitos, a arte soou como uma alegoria involuntária para a morte de pacientes, o que escancarou não apenas a percepção crítica sobre o sistema de saúde, mas também a delicadeza de inserir linguagem estética em espaços de dor e vulnerabilidade.

O caso expõe uma tensão antiga, mas ainda não resolvida, entre arte e funcionalidade em espaços públicos, especialmente em instituições como hospitais, que carregam simbolismos fortes. Em um país onde o Sistema Único de Saúde (SUS) é tanto motivo de orgulho quanto de frustração, a presença das asas passou a ser lida como uma espécie de comentário involuntário sobre a ineficiência do sistema — uma lembrança silenciosa de que nem todos sobrevivem à espera por atendimento ou à precariedade estrutural.

As críticas nas redes sociais evidenciaram esse incômodo. Termos como "marketing desastroso" e “romantização da morte” foram recorrentes. O problema não foi apenas a arte em si, mas a falta de sensibilidade institucional em prever os sentidos possíveis dessa imagem dentro do contexto hospitalar. A tentativa de suavizar o ambiente foi lida como uma estética desconectada da realidade vivida por usuários e profissionais da saúde.

A repercussão também revela o quanto a imagem pública de hospitais públicos ainda é marcada por desconfiança. Em vez de gerar empatia, a arte escancarou uma ferida: a falta de investimentos, a sobrecarga dos profissionais, a fila por exames, a dor da perda. As asas, nesse cenário, deixaram de ser símbolo de elevação espiritual ou leveza, para se tornarem metáfora de um voo precoce — aquele que a população teme ao entrar pelas portas de um hospital público brasileiro.

A escolha simbólica, mal posicionada, revelou um abismo entre intenção e recepção. Em tempos em que a comunicação institucional precisa ser pensada com responsabilidade, o episódio serve de alerta sobre a importância da escuta prévia e da leitura crítica de contextos sociais. A arte é bem-vinda em hospitais, desde que dialogando com a complexidade emocional do espaço. Do contrário, o que era para ser um gesto de acolhimento pode facilmente ser lido como um descuido — ou pior, um insulto.

O episódio das asas no HU-UEM é mais do que uma polêmica estética: é um reflexo das tensões entre imagem e realidade, entre boas intenções e consequências mal calculadas, entre o desejo de humanizar e o risco de desumanizar pela insensibilidade simbólica. Fica a lição de que, em espaços de cuidado e sofrimento, toda imagem fala — e, por vezes, grita.

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