Reportagem Exclusiva Bandidos de farda?!
Abordagem ou abuso? Policiais estão cada vez mais entre a linha tênue entre a lei e a violação de direitos
Uma cena gravada por câmeras de segurança na cidade de Serra, no Espírito Santo, ganhou o país nos últimos dias. O vídeo mostra uma jovem sendo submetida a uma revista vexatória por um policial militar: ela é obrigada a levantar sua saia repetidas vezes, girar o corpo em círculos e, por fim, tem suas nádegas apalpadas pelo agente — tudo isso em via pública, sob o olhar de outros policiais e cidadãos abordados. O flagrante, ocorrido na madrugada de 11 de maio, só veio à tona recentemente, mas causou imediata indignação nas redes sociais e reacendeu um debate urgente: até que ponto a polícia pode ir em uma abordagem? E quando a atuação ultrapassa o limite da legalidade e entra no campo do abuso?
13/07/2025 04h44 Atualizada há 1 ano
Por: Opinião, crítica e análise

O argumento da segurança pública não pode — e não deve — ser usado como escudo para justificar atos de humilhação. Mesmo em abordagens policiais, que são legalmente respaldadas em situações de fundada suspeita, há limites claros impostos pela Constituição e pelos direitos humanos. O artigo 5º da Constituição Federal assegura a inviolabilidade da intimidade, da honra e da dignidade da pessoa humana. A abordagem mostrada no vídeo parece ter ignorado esse princípio básico.

A exigência para que a jovem levantasse sua saia repetidas vezes não configura um procedimento padrão, tampouco a apalpação realizada pelo policial, que parece ter extrapolado o protocolo legal. A cena é constrangedora e, mais do que isso, revela um traço preocupante: a normalização do abuso sob o pretexto da segurança pública.

Silêncio institucional e cultura de impunidade

Embora a Polícia Militar do Espírito Santo tenha divulgado uma nota afirmando que irá "adotar as providências cabíveis", a resposta institucional segue genérica e pouco enfática. Não há, até o momento, informações sobre o afastamento preventivo do agente, tampouco sobre a abertura de um inquérito específico. A falta de uma resposta contundente contribui para a perpetuação da impunidade, que por sua vez alimenta o ciclo de violência institucional.

O caso não é isolado. Em diversas partes do país, sobretudo em áreas periféricas, relatos de abordagens abusivas e humilhantes são frequentes — e, muitas vezes, sequer chegam ao conhecimento público por falta de câmeras ou pela simples descrença das vítimas em relação à justiça.

A mulher e o corpo como campo de violação

O caso de Serra também escancara uma outra camada de violência: o machismo estrutural nas forças de segurança. O corpo feminino, frequentemente objetificado, é tratado como território de suspeita, revistado com desrespeito e exposto ao constrangimento. A ausência de uma policial feminina para conduzir a revista — como preconiza a própria normativa da PM — é uma grave falha procedimental.

A humilhação sofrida pela jovem não é apenas individual; é coletiva. Toca em medos e angústias partilhadas por milhares de mulheres que, mesmo diante de autoridades, não se sentem seguras. E isso é inaceitável.

O debate que o Brasil precisa enfrentar

Há um pacto social implícito que precisa ser resgatado: o de que a segurança pública não pode ser construída à base da violação de direitos. A polícia, enquanto instituição do Estado, deve proteger e servir, não humilhar e amedrontar. Há uma diferença enorme entre firmeza e autoritarismo, entre prevenção e abuso.

Casos como o de Serra devem servir de alerta, não de normalização. Que a sociedade siga exigindo respostas, que o Ministério Público atue com rigor, e que as corregedorias cumpram seu papel. O Brasil precisa de uma polícia eficaz, mas sobretudo, precisa de uma polícia justa e humana.

Se queremos viver em um estado de direito, a dignidade de cada cidadão — independentemente de classe, cor ou gênero — deve ser inegociável.

Se você presenciou ou foi vítima de abuso policial, saiba: você não está sozinho(a) e tem o direito de denunciar. A atuação das forças de segurança deve seguir princípios legais, éticos e de respeito à dignidade humana. Quando isso não acontece, é fundamental que os casos sejam levados às autoridades competentes — não só para responsabilizar os envolvidos, mas para evitar que novas violações aconteçam.

Onde denunciar abuso policial:

Ouvidoria da Polícia (Ouvidoria de Polícia Civil ou Militar do seu estado):

Ministério Público (MP):

Defensoria Pública:

Disque Direitos Humanos – Disque 100:

Ouvidorias de Direitos Humanos e entidades civis (como a OAB, ONGs e coletivos):

Como denunciar:

  1. Registre o que aconteceu: anote dia, horário, local, nomes ou características dos envolvidos, e o máximo de detalhes possíveis.

  2. Guarde provas: fotos, vídeos, prints e testemunhas são fundamentais.

  3. Procure os canais oficiais e siga o protocolo de denúncia.

  4. Se possível, acompanhe o andamento do caso.

É anônimo?

Sim. A maioria dos canais de denúncia aceita registros anônimos. Caso você se sinta inseguro ou com medo de retaliação, informe isso no momento da denúncia. Seu nome e identidade podem ser preservados.

Por que é importante denunciar?

A denúncia é um ato de coragem e cidadania. O silêncio protege o agressor. A voz de cada um fortalece o direito de todos.

Direito não é favor — é dever do Estado. Denuncie.