Reportagem Exclusiva Confiar em quem?
A execução de Giovani Matias Maciel e o silêncio das instituições
Quando a farda pesa mais que a lei!
13/07/2025 05h20
Por: Opinião, crítica e análise

A execução de Giovani Matias Maciel, de 19 anos, algemado e desarmado, pelas mãos de um policial militar da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, não é apenas um episódio isolado de brutalidade policial — é um retrato do colapso moral e institucional que ainda contamina parte significativa das forças de segurança no Brasil. Mais do que um erro de conduta, trata-se de um crime que exige não só investigação, mas responsabilização firme, pública e transparente.

O vídeo que circula e chocou o país não deixa espaço para dúvidas: Giovani estava rendido, no chão, sob custódia do Estado. Mesmo assim, foi alvejado por dois disparos, um deles claramente efetuado enquanto o jovem já estava imobilizado. Trata-se de uma execução sumária. Um ato que não encontra respaldo em nenhum manual de procedimento policial, tampouco em qualquer código legal de um Estado democrático de direito.

A resposta institucional até agora — o afastamento dos quatro policiais e a abertura de um inquérito com previsão de 30 dias — é o mínimo, mas está longe de ser suficiente. Em um país onde a letalidade policial é uma constante, principalmente contra jovens negros e pobres, a falta de punições exemplares apenas reafirma a cultura de impunidade. O afastamento é um gesto paliativo, uma forma de tentar estancar a crise de imagem, mas não é justiça.

É sintomático que as defesas dos policiais apelem para a velha retórica do "vídeo cortado". Ainda que o vídeo seja um fragmento da ação, a imagem mais contundente — o disparo final contra um homem indefeso — não pode ser relativizada. Não importa o que Giovani tenha feito antes. Existia um mandado de prisão, havia algemas em seus pulsos, e havia policiais armados e treinados para contê-lo. O Estado tinha o dever de preservar sua vida para que ele respondesse pelos seus atos na Justiça. Mas preferiu matá-lo.

É preciso também questionar o papel da formação policial no Brasil, que continua permitindo que agentes confundam justiça com vingança, contenção com execução, ordem com violência desmedida. O uso excessivo da força, longe de ser um erro isolado, parece cada vez mais institucionalizado, alimentado por discursos políticos que naturalizam a violência como forma de governar e punir os "inimigos da sociedade".

Por fim, é urgente que a sociedade e os órgãos de controle — como o Ministério Público e a própria Corregedoria — assumam uma postura ativa e transparente. A perícia da arma, dos projéteis e do vídeo não pode ser apenas um rito burocrático. Deve ser parte de uma apuração séria, com participação externa e fiscalização independente, sob risco de que mais um caso brutal acabe arquivado nas gavetas do esquecimento institucional.

Giovani Matias Maciel já não pode contar sua versão. Mas o vídeo fala por ele — e fala por tantos outros que também não tiveram essa chance. Que a indignação social se transforme em pressão concreta por justiça, reforma policial e respeito à vida. Do contrário, continuaremos assistindo à barbárie sendo filmada, divulgada e, no fim, perdoada.