Nos anos 1990 e 2000, programas como a Banheira do Gugu,, as Paniquetes do Pânico na TV, além de figuras como Tiazinha e Feiticeira, e atualmente, os Salvavidas do Ratinho, tornaram-se ícones da TV aberta — não por seu conteúdo educativo, mas por cenas de nudez parcial, erotização explícita e sexualização da mulher, exibidas em pleno domingo à tarde ou em programas com estrutura familiar. Havia sensualidade em jogos de sabão, entrevistas disfarçadas e coreografias ousadas. Tudo ao alcance do controle remoto de uma criança.
Vale lembrar: TV aberta é concessão pública. Não é “terra sem lei”. E, diferente da internet, não é possível controlar quem está assistindo. Crianças, especialmente de famílias com menor acesso à educação digital, foram e continuam sendo expostas a conteúdos que banalizam o corpo, os estereótipos de gênero e os papéis sociais da mulher.
Mesmo sob a chamada “classificação indicativa”, que deveria funcionar como um filtro de proteção, a realidade mostrou que a TV se aproveitou por muito tempo de brechas legais e da falta de fiscalização efetiva. A erotização da infância passou despercebida sob o véu do entretenimento.
Esses casos não são episódios isolados — são reflexos de uma cultura televisiva que priorizou o ibope ao invés da responsabilidade social. Enquanto se exigia rigor em conteúdos educativos, programas com conteúdo sexual disfarçado eram tratados como diversão familiar. A contradição se agrava ao lembrarmos que os mesmos canais que vendiam sensualidade em quadros de apelo sexual, também exibiam novelas infantis, desenhos e blocos destinados ao público infantojuvenil — sem qualquer transição responsável.
A naturalização da apelação na TV aberta formou gerações sob a lógica de que sensualidade feminina (e atualmente também masculina) era entretenimento e que audiência justificava tudo. Não à toa, o debate sobre os limites éticos da comunicação e o papel das emissoras na construção social da infância segue sendo tão urgente.
Hoje, com o avanço das plataformas digitais e da internet, o discurso fácil é o de que “a TV não influencia mais como antes”. Mas isso é um equívoco. Em muitas regiões do país, a televisão aberta ainda é o principal ou único meio de acesso à informação e lazer. E por ser concessão pública, ela deve seguir princípios constitucionais de dignidade humana, proteção à infância e respeito à diversidade, como preveem o artigo 221 da Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Portanto, a crítica não é moralista — é legal, ética e necessária. A apelação que por anos foi disfarçada de diversão não pode mais ser tratada como inofensiva. Televisão é poder, é formação, é influência. E com isso vem responsabilidade.
Leia mais sobre: A “Banheira Gospel”? Quando a Record Reproduziu a Erotização Televisiva em Nome da Audiência
A TV brasileira tem uma dívida histórica com sua audiência — principalmente com as crianças que cresceram assistindo o que nunca deveriam ter visto.
Na Rede Geração, praticamos um tipo de jornalismo que vai além da simples transmissão de fatos. Nosso compromisso é com o jornalismo opinativo, crítico e analítico — uma abordagem que interpreta, contextualiza e posiciona os acontecimentos dentro de um olhar social, político e ético.
Diferente do jornalismo tradicional de viés “neutro”, essa prática não se limita a “ouvir os dois lados” como única obrigação. Isso porque nem todo conflito é equilibrado, nem toda fonte tem o mesmo peso, e nem toda versão dos fatos é legítima. O jornalismo opinativo não é imparcial — ele é responsável.
Jornalismo opinativo assume uma posição diante dos fatos. Não se omite. Não normaliza injustiças. Ele denuncia, aponta caminhos e reconhece o lugar político de onde fala. A opinião é um instrumento de leitura crítica do mundo.
Jornalismo crítico questiona estruturas de poder, revela contradições, analisa contextos históricos e sociais. Ele não reproduz a fala oficial sem checar o que está por trás. Criticar é parte essencial da democracia.
Jornalismo analítico vai além da manchete: explica causas, consequências, interesses envolvidos e omissões convenientes. Ele conecta os pontos e revela o que os discursos oficiais tentam esconder.
Por isso, esse tipo de jornalismo não precisa — e muitas vezes não deve — “ouvir todas as partes” para ser legítimo. Quando há flagrante de violência, quando há documentos, vídeos, depoimentos públicos ou silêncio institucional, o que se exige é responsabilidade, não simetria artificial. Dar “voz ao outro lado” não pode significar ceder espaço para desinformação, racismo, homofobia, machismo, gordofobia, abuso de autoridade etc.
Na Rede Geração, entendemos que o jornalismo é uma ferramenta de transformação. E transformação exige posicionamento.
Nosso conteúdo é opinativo porque temos lado: o lado da justiça.
É crítico porque não aceitamos verdades prontas.
É analítico porque sabemos que o jornalismo não deve apenas contar o que aconteceu, mas explicar por que aconteceu — e para quem interessa.
Os conteúdos de opinião, análise e crítica publicados pela Rede Geração são protegidos por direitos autorais e propriedade intelectual. O uso não autorizado, total ou parcial, especialmente em contextos que distorçam seu sentido ou omitam sua autoria, constitui violação passível de responsabilização civil e criminal. A reprodução indevida poderá resultar em medidas legais e indenizatórias conforme previsto na legislação vigente.