Um cidadão com deficiência auditiva procurou a ASUMAR em busca de atendimento e inclusão. Foi recebido, orientado a fazer audiometria e entregar a documentação necessária. Feito isso, recebeu como resposta: “Vou armazenar em seu prontuário da ASUMAR”. A partir daí, o silêncio se tornou o padrão. Onze dias após o envio dos documentos, o cidadão insistiu: foi respondido que a diretoria ainda avaliava “como seria sua participação”. Trinta e quatro dias depois, após novo contato, sua mensagem foi apenas visualizada — e ignorada.
O episódio não é apenas um desrespeito individual — é um sintoma preocupante de uma entidade que parece não operar com transparência, regularidade ou respeito à comunidade que deveria servir. No momento em que esta reportagem é publicada, a ASUMAR não apresenta atualizações visíveis em redes sociais de registros públicos de eventos ou ações recentes. O último foi de abril, de um curso de LIBRAS, depois somente eventos para arrecadação de fundos, contratação e um depoimento com uma foto antiga.
Seu perfil no Instagram está sem registros fotográficos de atendimentos, oficinas, encontros ou qualquer tipo de atividade compatível com o recebimento de verbas públicas.
No contexto atual, com dezenas de instituições lutando por verbas e reconhecimento, é inaceitável que uma entidade subvencionada atue sem mostrar resultados concretos. É ainda mais grave quando essa ineficiência prejudica pessoas em situação de vulnerabilidade, como no caso de um cidadão surdo que não recebeu retorno nem acolhimento institucional após mais de um mês de espera.
A ASUMAR recebeu, nos últimos anos, valores relevantes da Prefeitura de Maringá por meio do Fundo da Assistência Social e do Fundo da Infância e Adolescência (FIA), somando mais de R$ 130 mil em repasses. Esse montante deveria garantir estrutura mínima para atendimento, registro de atividades, relatórios de impacto social, comunicação ativa com os usuários e, acima de tudo, respeito.
Fontes: Associação de Pais, Amigos e Pessoas com Deficiência, de Funcionários do Banco do Brasil e da Comunidade e Fundo para Infância e Adolescência (FIA) beneficia 49 entidades assistenciais do município
Não se trata de perseguição ou desconfiança infundada. Trata-se de responsabilidade com o dinheiro do contribuinte. Se uma associação é beneficiada com dinheiro público, deve responder publicamente com ações, relatórios e acessibilidade — e não com mensagens ignoradas em aplicativos de conversa.
O caso também escancara a fragilidade dos mecanismos de fiscalização das entidades subvencionadas. A Secretaria de Assistência Social e Cidadania (SASC) tem obrigação legal de verificar a aplicação dos recursos e os resultados das ações. Mas até o momento, não há sinais de que alguma fiscalização ou auditoria tenha sido feita na ASUMAR com base em critérios objetivos e atualizados.
Da mesma forma, a Câmara de Vereadores de Maringá, que deveria acompanhar os repasses e cobrar resultados, permanece inerte. Nenhum vereador se manifestou publicamente sobre a transparência das entidades subvencionadas. Essa omissão contribui para a perpetuação de um modelo em que recursos públicos desaparecem silenciosamente, sem prestação de contas efetiva e sem retorno real à comunidade.
Não é possível falar de inclusão se o básico não é garantido: acolhimento, resposta e continuidade no atendimento. A comunidade surda de Maringá tem direito a serviços estruturados, entidades atuantes e representantes que não apenas ocupem espaços institucionais, mas que atuem com seriedade, regularidade e dignidade.
O que se espera agora é uma resposta clara da ASUMAR: quais atividades estão sendo desenvolvidas? Onde estão os registros? Como está sendo aplicado o dinheiro público recebido? Qual o fluxo de atendimento e o tempo máximo de resposta? Existe um regulamento interno claro e acessível para quem busca a entidade?
Caso contrário, cabe aos órgãos de controle — Ministério Público, vereadores e sociedade civil — exigir respostas e, se necessário, suspender os repasses e investigar eventuais irregularidades.
Porque a inclusão começa com escuta. E escutar é o mínimo que se espera de quem se diz porta-voz da comunidade surda.
O desfecho desse caso é tão grave quanto o descaso institucional: o denunciante, um cidadão surdo que buscava apoio, agora não se sente seguro para continuar no processo. Teme represálias veladas, constrangimento ou simplesmente ser ignorado em definitivo. Carregando também questões emocionais delicadas, a frustração de não ter sido acolhido adequadamente transforma o que deveria ser um espaço de apoio em mais um ambiente de insegurança.
Este não é um caso isolado — é um sintoma. Quando uma instituição que se diz representante da inclusão trata com negligência justamente quem precisa de acolhimento, ela reproduz as mesmas barreiras que diz combater. E isso, em qualquer esfera, é inaceitável.
A denúncia agora está feita. Cabe aos órgãos públicos, à sociedade civil e aos próprios membros da comunidade surda exigirem aquilo que é básico, mas frequentemente negado: respeito, acolhimento e resposta. Porque o silêncio, quando vem de quem tem o dever de escutar, deixa de ser omissão — e passa a ser violência institucional.
O caso foi denunciado ao MP:
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