Cidades: Maringá Era para melhorar?!
Hora Marcada Para Ficar Doente? A Burocratização da Saúde em Maringá Ignora a Realidade da População
Agora só com hora marcada!
24/07/2025 22h16
Por: Opinião, crítica e análise
Foto: UBS Ney Braga

A Prefeitura de Maringá acaba de implementar uma mudança significativa (e controversa) no atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs): a partir de agora, somente quem tiver agendamento prévio será atendido. O objetivo, segundo a Secretaria de Saúde, é organizar o fluxo, reduzir filas e melhorar o tempo de espera. No papel, parece eficiente. Na vida real, porém, a medida está gerando desinformação, exclusão e revolta — sobretudo entre os mais vulneráveis.

Porque sim, a saúde tem hora para consulta, mas não para ficar doente. Quem acorda com febre, dor aguda, crise de ansiedade ou um filho pequeno gripado deve fazer o quê? Esperar a agenda abrir? Tentar agendar pela internet, onde poucos têm acesso ou familiaridade? Ou simplesmente desistir?

O SUS não é um consultório particular

É preciso entender que o Sistema Único de Saúde (SUS) foi criado para atender a todos, em qualquer situação, principalmente aqueles que não têm plano de saúde, não podem pagar consulta particular e vivem de trabalho informal. Hoje, em Maringá, milhares de pessoas dependem do SUS e muitas delas são MEIs, autônomos, diaristas, vendedores ambulantes, motoboys ou trabalhadores por aplicativo, que vivem de bicos e têm rotina instável.

Com o novo sistema, quem já está em condição de vulnerabilidade é ainda mais penalizado. Imagine um MEI com dor nas costas ou febre. Ele consegue um agendamento para daqui a três dias, mas precisa trabalhar. Se não comparece, “perde a consulta”. Vai apresentar atestado para quem? O SUS vai oferecer justificativa formal para um cliente que cancelou o serviço do dia?

A falsa promessa da organização

A Prefeitura vende a ideia de que o agendamento traz organização. Mas o problema da saúde pública não é desorganização individual — é subfinanciamento estrutural, falta de profissionais e precarização do atendimento. Sem aumentar o número de médicos e equipes disponíveis nas UBSs, marcar hora é só transferir a frustração de uma fila presencial para uma fila virtual.

Mais grave ainda é que o modelo de “hora marcada” aumenta a desigualdade no acesso. Pessoas com mais escolaridade, familiarizadas com apps e sistemas digitais, vão se adaptar. Já os idosos, moradores da periferia, trabalhadores sem rotina fixa ou com baixa instrução digital, ficam para trás — e nem sempre sabem como reagendar ou onde buscar ajuda.

Transparência ou mais um “jeitinho”?

Em um país onde o "jeitinho brasileiro" ainda reina, a medida abre espaço para prioridades informais, furadas de fila e esquemas internos. Quem garante que a lista de agendamento será respeitada integralmente? Quem fiscaliza se vagas não serão reservadas “por fora”? Há uma política de encaixe transparente, ou o critério é o bom humor do servidor de plantão?

Sem um controle rígido e aberto à população, o sistema corre o risco de virar mais uma vitrine de eficiência para a gestão pública, enquanto o cidadão comum continua sendo mal atendido — ou simplesmente não atendido.

Uma cidade eficiente só se constrói com empatia

Ninguém discute que a saúde precisa de organização. Mas isso não pode ser feito às custas da urgência, da espontaneidade e da realidade de quem mais precisa. Um sistema que ignora o contexto social de sua população não é moderno, é elitista.

Se a Prefeitura quer de fato melhorar a saúde pública, que invista em mais profissionais, amplie a escuta ativa nas UBSs, mantenha o atendimento presencial para casos agudos, e principalmente: ouça os usuários do SUS. Porque saúde pública só é eficiente quando é humana, acessível e realista.

 

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