Cidades: São Paulo Zombaria do mal
Hora do Horror no Hopi Hari, Fã ao ver Donatello se ajoelha em reverência, amigos ao verem a cena zuam: “Tá mamando!“”
Quando uma noite de terror se mistura com reverência, algo inesperado acontece. Imagine a cena: no escuro labirinto do Circo dos Horrores, dentro da famosa Hora do Horror do Hopi Hari, um fã se ajoelha diante de Donatello — o bobo da corte macabro — em gesto de devoção. Seus amigos, no entanto, não perdem tempo: “Tá mamando!”, zombam com risadas. É uma frase rude, provocadora, que expõe muito mais do que apenas um momento de diversão: revela tensões sociais, performatividades e o limiar entre o medo e a adoração.
23/11/2025 21h45 Atualizada há 9 meses
Por: Opinião, crítica e análise
Donatello — o bobo da corte macabro que virou ídolo de muitos - Foto: Blog Hopi Hari

Contextualizando o Horror

A Hora do Horror é um dos eventos mais emblemáticos do Hopi Hari. Realizado entre agosto e novembro, o parque se transforma: desde 2002, contornos sombrios e personagens aterrorizantes circulam por túneis temáticos, enquanto shows e performances noturnas dão corpo a uma narrativa de horror.

Em 2025, a edição bate seus próprios recordes: intitulado “Circo dos Horrores: A Origem!”, o enredo nos transporta para 1957, em uma cidade fictícia onde um circo sinistro sequestra moradores para transformá-los em aberrações para seu espetáculo. A ambientação é propositalmente retrô — figurinos, cenografia e linguagem evocam os clássicos freak shows norte-americanos dos anos 50. 

Entre os muitos monstros e palhaços macabros, Donatello surge como um dos personagens mais carismáticos. Interpretado pelo ator Augusto Paz, ele mistura humor irreverente e tom sombrio, transitando entre a comédia e o horror — uma figura que “roubou a cena” para muitos visitantes. Sua maquiagem é fruto de um trabalho minucioso, que pode levar até uma hora para ser aplicada.

A Cena: Devoção ou Performance?

Voltemos ao momento central: o visitante que se ajoelha diante de Donatello. É algo que flagra a fronteira entre “participante do espetáculo” e “fã fervoroso”. Restaurar essa imagem no escuro da noite, com outras figuras monstruosas ao redor, carrega um simbolismo poderoso — como se ele reconhecesse, naquele palhaço bizarro, um rei ou uma divindade do grotesco.

Mas por que ajoelhar-se diante de uma figura de horror? Talvez porque Donatello, apesar de sua grotesca teatralidade, não é apenas mais um monstro: ele é líder simbólico da corte macabra, um mestre de cerimônias sombrio que comanda risos e sustos. Sua presença é tão forte, sua performance tão magnética, que ultrapassa a barreira entre o ator e o ícone.

Ajoelhar-se pode significar rendição ao medo, sim — mas também pode significar rendição à arte e à imersão. No universo da Hora do Horror, onde o real e o fantástico se cruzam, um gesto tão dramático faz sentido: o participante se entrega completamente à narrativa, aceita o deslumbre e o terror como parte de si.

Este ano, a Hora do Horror teve muita devoção e homenagens:

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A Reação dos Amigos: O Ridículo e o Juízo Social

E então vem a provocação: “Tá mamando!”. Essa zombaria desrespeitosa quebra o silêncio ritualístico do momento e, de certa forma, banaliza o gesto solene. Não é apenas uma piada; é uma acusação de submissão, de fraqueza, de infantilização.

Essa frase pode ser vista sob várias camadas. Em uma leitura mais superficial, é apenas um deboche típico de amigos que não entendem — ou menosprezam — o que o outro está sentindo. Mas mais profundamente, revela preconceitos sobre como o “ser fã” deve se manifestar. A provocação sugere que ajoelhar-se, expressar devoção, demonstrar admiração é algo degradante, ridículo, digno de zuera. E, nesse sentido, há uma tensão sobre a “masculinidade” do fã: ajoelhar-se é um ato conotado de submissão, e a zombaria de seus amigos reforça esse julgamento social.

Também é relevante notar que a Hora do Horror não é apenas entretenimento barato: é uma experiência imersiva, teatral — um espaço onde o público e os atores entram em uma espécie de pacto simbólico. Quando um visitante quebra esse pacto com um gesto inesperado, como ajoelhar-se, ele desafia os limites do que é “normal” na performance de horror. Seus amigos, com a provocação vulgária, reafirmam esses limites.

O Que Isso Nos Diz Sobre a Experiência do Terror

Essa cena peculiar — a reverência seguida de troça — é mais do que apenas um momento engraçado ou embaraçoso. É um espelho da própria natureza da Hora do Horror e da cultura de fãs:

  1. Imersão Total: O ajoelhar-se mostra que alguns visitantes não apenas “vem para se assustar”, mas para mergulhar completamente na narrativa. Eles não são espectadores passivos, mas sujeitos ativos na encenação.

  2. Ambiguidade entre Horror e Adoração: No mundo do circo macabro, o grotesco pode ser reverenciado. O terror se mistura com a atração, a repulsa com o fascínio — e Donatello simboliza esse limite.

  3. Judicío de Paixão: A zombaria dos amigos revela um julgamento social: demonstrar devoção por algo não convencional (um palhaço sinistro) pode ser visto como infantil, ridículo, “fora do padrão”.

  4. Cultura de Performance: O fenômeno demonstra como a experiência da Hora do Horror ultrapassa o susto — é arte viva, teatro, ritual. Gestos como o ajoelhar-se são parte dessa performance.

Um Chamado à Respeito

A cena merece ser vista com mais empatia e menos escárnio. Sim, pode parecer exagerado ou “estranho” para quem não compreende a dinâmica de uma experiência imersiva de terror. Mas desrespeitar esse tipo de entrega caminhar na direção oposta do que torna a Hora do Horror tão especial.

O parque construiu, ao longo dos anos, uma comunidade de fãs que não querem apenas gritar ou correr; eles querem vivenciar, interpretar, participar. Ignorar ou ridicularizar esse público é subestimar a profundidade emocional que eventos como esse podem gerar.

Mais do que isso, é uma oportunidade para refletirmos sobre como reagimos às expressões de afeto ou admiração que fogem do convencional. Se ajoelhar diante de um palhaço macabro incomoda, talvez seja porque fomos condicionados a ver a devoção apenas nos moldes tradicionais — mas o teatro do horror também tem sua devoção.

A cena do fã ajoelhando-se diante de Donatello, e os amigos respondendo com deboche, é mais do que um momento curioso: é uma metáfora viva das contradições que permeiam a experiência da Hora do Horror. Revela a intensidade da imersão, a ambiguidade entre medo e adoração, e os julgamentos sociais que surgem quando a paixão é expressa de forma não convencional.

Se o Hopi Hari é, por algumas horas, um circo macabro onde o real e o imaginário se fundem, então esse gesto de reverência — por mais estranho ou exagerado que pareça — é talvez o reflexo mais puro de como o terror, quando bem construído, pode inspirar mais do que medo: pode inspirar devoção.

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