Num vídeo que viralizou no TikTok — publicado por um criador de conteúdo que reacendeu interesse sobre seu paradeiro — ele relatou como vem lidando com o passado, a transição para a igreja e o esporte, e os fantasmas que emergiram dessa mudança.
Mas a mudança não trouxe paz: segundo suas declarações, dentro da própria igreja ele foi alvo de assédio por parte de outros líderes religiosos. Ele afirma que “pastores já deram em cima de mim querendo ter relações sexuais comigo para eu ter regalias dentro da igreja, receber dinheiro do dízimo” — algo que ele categoricamente rejeitou.
Hoje, além de buscar reconstruir sua vida com base na fé e no esporte, Moisés sonha em abrir uma academia de jiu-jitsu voltada à inclusão — em especial para pessoas LGBTs que, segundo ele, sofrem repressão no meio esportivo.
A denúncia de Moisés revela a contradição profunda entre o discurso moral e religioso que algumas igrejas adotam e os comportamentos que, segundo ele, ocorrem nos bastidores. A própria ideia de “igreja como refúgio espiritual” se choca com relatos de abusos, manipulação e propostas de favores em troca de benefícios. É uma crítica que questiona não apenas indivíduos, mas sistemas de poder e moralidade dentro de instituições religiosas.
Além disso, sua trajetória evidencia como o passado — mesmo abandonado — segue moldando sua vida: ele declara ter perdido patrocínios no esporte por causa do histórico na pornografia e sofre com preconceito, tanto na igreja quanto no meio esportivo e social.
Essa intersecção entre sexualidade, religião, esporte e mercado revela o quão frágil é a linha que divide redenção, julgamentos e estigma. O relato de Moisés sugere que, muitas vezes, a "moral" pregada institucionalmente convive com práticas de coerção e abuso — algo a ser debatido sinceramente.
Moisés conta que entrou no mundo da pornografia durante um período de vulnerabilidade: expulso de casa, sem respaldo familiar ou perspectivas de emprego, viu na indústria adulta uma forma de sobrevivência — ainda que pouco promissora.
Ele afirma que mesmo ganhando destaque, nunca alcançou o que os boatos de “fama e dinheiro fácil” prometem: “nunca fiquei rico com pornô, é impossível”, disse em entrevista.
A decisão de abandonar esse universo e buscar a fé e o esporte como pilares de uma nova vida pode ser interpretada como uma tentativa de reconstrução — mas a reconstrução, para ele, está longe de ser simples. O estigma, o preconceito e a rejeição por parte de antigos patrocinadores e de comunidades religiosas e esportivas mostram como recomeçar não significa apagar a história.
Mais do que isso: sua luta se dá num cenário onde recomeços pessoais colidem com estruturas sociais que não perdoam nem oferecem acolhimento — o que torna essa reinvenção também um ato de coragem.
O caso de Moisés levanta questões importantes para a sociedade:
até que ponto espaços religiosos — que se dizem de acolhimento — conseguem lidar com histórias de pessoas que vieram de contextos estigmatizados?
como lidar com o passado de alguém que se converteu, sem transformá-lo num atestado de culpa ou vergonha eterna?
quanta hipocrisia se esconde por trás de normas morais rígidas quando o poder e o privilégio estão em jogo?
A denúncia de assédio dentro da igreja mostra que os problemas não estão apenas no passado de quem busca recomeço, mas nas estruturas institucionais que, muitas vezes, lucram com moralismo, exclusão e promessas de salvação.
Além disso, a dificuldade de reinserção no esporte e na sociedade revela o estigma duradouro sobre o pornô — e como a “redenção” nem sempre garante o fim da discriminação.
Porque ela coloca um espelho diante da sociedade sobre o contraste entre discurso e prática — especialmente no que tange a sexo, fé, poder e vulnerabilidade. A trajetória de Moisés não é apenas um relato individual. É um alerta sobre a fragilidade de quem tenta reconstruir a vida, sobre a dureza do julgamento social, e sobre a urgência de espaços de acolhimento reais, sem moralismo hipócrita.
Se há algo positivo nessa história, talvez seja a coragem: coragem de denunciar, de confrontar, de admitir vulnerabilidades, e de tentar construir algo novo. É um convite — para quem acredita, para quem julga, para quem assiste — a refletir sobre misericórdia, empatia e justiça humana.