Em espanhol, Boquete vem de “boquete” no sentido geográfico: passagem, abertura, desfiladeiro. Tudo muito inocente, quase poético. Já no português brasileiro… bem, aí o mapa muda completamente. Aqui, boquete não leva a trilhas ecológicas, mas a risadinhas nervosas, silêncio constrangido e uma súbita vontade de mudar de assunto.
É impossível para um brasileiro ouvir frases como: “Boquete é conhecido pelo melhor café do Panamá”, sem que o cérebro dê uma pequena pane moral seguida de um “meu Deus, controle-se”.
Do ponto de vista do marketing turístico, Boquete é praticamente um teste psicológico para brasileiros. Imagine o anúncio:
“Venha passar o fim de semana em Boquete. Você nunca vai esquecer.”
Mentira não é.
Brasileiros amariam conhecer Boquete — não só pelo café, pelas montanhas ou pelo ecoturismo, mas pela alegria infantil de poder dizer, em voz alta e com documentação oficial, que “estão indo para Boquete”. Para muitos, seria a primeira viagem internacional movida puramente pela quinta série interior.
Há ainda um charme adicional: Boquete oferece ao brasileiro médio a oportunidade única de rir por dentro mantendo a compostura por fora. Especialmente os enrustidos, que podem falar longamente sobre Boquete com a família, colegas de trabalho ou até na imigração do aeroporto, experimentando aquela emoção ambígua de dizer algo absolutamente normal em espanhol, mas deliciosamente escandaloso em português — tudo isso com álibi linguístico.
É quase terapêutico.
O caso de Boquete é um lembrete brilhante de que idiomas não apenas comunicam — eles pregam peças. O que em um país é patrimônio natural, em outro é piada pronta. E o brasileiro, conhecido por não desperdiçar uma ambiguidade sequer, transforma um destino sofisticado em um meme ambulante.
No fim das contas, Boquete segue lá, alheia ao nosso duplo sentido, produzindo cafés excelentes e recebendo turistas do mundo todo — inclusive brasileiros tentando manter a seriedade enquanto dizem, com cara de paisagem, que Boquete mudou suas vidas.
E talvez tenha mudado mesmo. Nem que seja só o vocabulário.