lgbtqiapn+ No Panamá
Boquete, a cidade que os brasileiros amariam conhecer, principalmente os enrustidos.
um destino turístico que o português não estava preparado para lidar
06/01/2026 16h02 Atualizada há 7 meses
Por: Opinião, crítica e análise

Em espanhol, Boquete vem de “boquete” no sentido geográfico: passagem, abertura, desfiladeiro. Tudo muito inocente, quase poético. Já no português brasileiro… bem, aí o mapa muda completamente. Aqui, boquete não leva a trilhas ecológicas, mas a risadinhas nervosas, silêncio constrangido e uma súbita vontade de mudar de assunto.

É impossível para um brasileiro ouvir frases como: “Boquete é conhecido pelo melhor café do Panamá”, sem que o cérebro dê uma pequena pane moral seguida de um “meu Deus, controle-se”.

Turismo internacional e o eterno adolescente interior

Do ponto de vista do marketing turístico, Boquete é praticamente um teste psicológico para brasileiros. Imagine o anúncio:

“Venha passar o fim de semana em Boquete. Você nunca vai esquecer.”

Mentira não é.

Brasileiros amariam conhecer Boquete — não só pelo café, pelas montanhas ou pelo ecoturismo, mas pela alegria infantil de poder dizer, em voz alta e com documentação oficial, que “estão indo para Boquete”. Para muitos, seria a primeira viagem internacional movida puramente pela quinta série interior.

Um paraíso especialmente atrativo para os enrustidos

Há ainda um charme adicional: Boquete oferece ao brasileiro médio a oportunidade única de rir por dentro mantendo a compostura por fora. Especialmente os enrustidos, que podem falar longamente sobre Boquete com a família, colegas de trabalho ou até na imigração do aeroporto, experimentando aquela emoção ambígua de dizer algo absolutamente normal em espanhol, mas deliciosamente escandaloso em português — tudo isso com álibi linguístico.

É quase terapêutico.

A língua como armadilha cultural

O caso de Boquete é um lembrete brilhante de que idiomas não apenas comunicam — eles pregam peças. O que em um país é patrimônio natural, em outro é piada pronta. E o brasileiro, conhecido por não desperdiçar uma ambiguidade sequer, transforma um destino sofisticado em um meme ambulante.

No fim das contas, Boquete segue lá, alheia ao nosso duplo sentido, produzindo cafés excelentes e recebendo turistas do mundo todo — inclusive brasileiros tentando manter a seriedade enquanto dizem, com cara de paisagem, que Boquete mudou suas vidas.

E talvez tenha mudado mesmo. Nem que seja só o vocabulário.