Michel Hajime é jornalista e professor universitário. Foi vítima de pedofilia aos 16 anos quando foi figurante de novelas, mas ele só compreendeu a dimensão dos próprios traumas aos 37 anos. Por décadas, seguiu a vida. Estudou, trabalhou, construiu uma carreira de sucesso e colecionou conquistas. Mas o corpo guardava uma história que a mente ainda não conseguia contar.
Aos 37 anos, veio o diagnóstico de transtorno do pânico. Antes disso, foram seis meses de sintomas sem nenhuma explicação lógica. Somente depois de uma bateria de exames descartar todas as causas físicas surgiu a resposta: a origem de tudo estava nos traumas que carregava desde a infância.
"Passei por tentativa de cura gay. Fui agredido na escola por ser gay quando ainda era criança, antes mesmo de saber o que era sexo ou o que era ser gay. Me senti como um rato de laboratório quando descobri que vim ao mundo para ser o que meu pai não foi: jogador de futebol. Ele tinha uma pinta no rosto e sempre dizia que queria um filho 'com pinta e com pinto'. Antes mesmo de eu nascer, ele já queria um filho homem.
Quando entrei em tratamento no CAPS e comecei a entender minha vida, fui conversar com minha irmã, 14 anos mais velha. Ela assumiu que foi morar no Japão para fugir, porque sempre sofreu por não ser o filho homem que ele tanto queria."
Aquela conversa revelou que o peso das expectativas do pai não havia marcado apenas um filho. Era uma história que atravessava toda a família.
Criado por um pai de traços narcisistas e uma mãe marcada pela submissão, cresceu acreditando que amar era corresponder às expectativas dos outros. Por mais que conquistasse, nunca era suficiente.
"Em um momento senti como se estivesse no topo de uma montanha. Não tinha mais para onde subir. Todo mundo me dava parabéns por tudo o que eu era e pelo que tinha conquistado: graduação, seis pós-graduações, mestrado, o primeiro da família — tanto por parte de pai quanto de mãe — a chegar a esse nível de formação, repórter e editor-chefe de emissoras de televisão. Mas, para o meu pai, ainda não estava bom. Ele queria mais."
Enquanto acumulava diplomas e reconhecimento profissional, também crescia isolado. Viveu a infância e boa parte da juventude como se estivesse dentro de uma redoma de vidro. Depois que a irmã foi embora, tornou-se o filho que os pais tinham medo de perder. A superproteção acabou transformando o mundo em um lugar cada vez menor.
Foi justamente o circo que rompeu essa redoma.
"Desde criança eu queria fugir com o circo. Hoje me pergunto se, no fundo, eu já queria fazer o mesmo que minha irmã: fugir."
Aos 35 anos, começou a frequentar uma escola de circo. As dificuldades físicas pareciam consequência da idade, até descobrir que eram resultado dos medicamentos que recebeu durante anos na tentativa de cura gay. Tratamentos que deixaram marcas muito além daquelas que apareciam nos exames.
Anos depois, uma visita ao espetáculo Crystal, do Cirque du Soleil, desencadeou aquilo que ele hoje reconhece como o gatilho para a crise que culminaria no diagnóstico de transtorno do pânico. Ironicamente, durante muito tempo se recusou a assistir ao espetáculo por discordar do uso da Lei de Incentivo à Cultura para financiar uma produção estrangeira. Quando finalmente aceitou o convite, não imaginava que aquela viagem marcaria o início de um novo capítulo de sua vida.
Ela também simbolizou outra despedida.
"Foi a primeira vez que viajei de avião em um voo comercial. Até então, só havia voado em um avião executivo, durante uma reportagem, quando ainda era repórter. Naquele momento, também me despedi do sonho de ser comissário de voo. Cheguei a concluir o curso, mas fui enganado por quem o vendeu, mesmo sabendo que eu jamais poderia exercer a profissão por ser surdo do ouvido direito. Nem cheguei a fazer a prova da ANAC, já que é exigida audição mínima de 95% em ambos os ouvidos."
A vida que parecia construída sobre conquistas revelou-se, na verdade, sustentada por silêncios, traumas e expectativas que nunca lhe pertenceram. Foi preciso desmoronar para compreender a própria história.
E foi no lugar onde, desde menino, sonhava encontrar liberdade que começou a reconstruí-la: o picadeiro.
"É nele que volto a ser criança. E é por todas as crianças — especialmente pelas que tiveram a infância marcada pela dor, como a minha — que eu escolho lutar".
"Denunciei diversos casos de pedofilia, fui ameçado de morte, mas já não tenho mais medo de morrer, até porque fui morto diversas vezes em minha vida, sem nunca me dispararem nenhum tiro. Se tiver que morrer por crianças inocentes, morro como homem, mais homem do que todos aqueles que foram homofóbicos comingo, mas não são homens para lutar por crianças indefesas".
Sua trajetória reúne perdas, silêncios, violência, superação e recomeços. É a história de alguém que passou grande parte da vida tentando ser quem esperavam que fosse, até compreender que a maior conquista não estava nos títulos acadêmicos, na carreira ou no reconhecimento profissional, mas na coragem de reconstruir a própria identidade e transformar a dor em narrativa.