Chamam o banheiro unissex de perversão. Dizem que ele colocará crianças em risco, destruirá a família e transformará o banheiro em um espaço sem regras. Mas basta olhar para o modelo que costuma ser proposto para perceber que a realidade é exatamente o oposto.
O banheiro unissex não é um grande salão onde homens e mulheres dividem o mesmo espaço íntimo. A proposta mais comum prevê cabines totalmente individuais, fechadas, semelhantes aos atuais banheiros acessíveis (PCD). Apenas a área dos lavatórios é compartilhada. Isso aumenta a privacidade, permite que mães acompanhem filhos, pais acompanhem filhas, facilita a vida de acompanhantes e reduz constrangimentos.
Então por que tanto medo?
Na minha opinião, parte do discurso contrário parece inverter completamente a realidade. Chama-se a proposta de "pervertida", quando ela elimina justamente características dos banheiros masculinos que hoje permitem encontros sexuais clandestinos. Sem mictórios, com cabines individuais e circulação constante de homens e mulheres na área comum, esse tipo de ambiente tende a dificultar práticas obscenas escondidas.
É por isso que considero legítimo levantar uma pergunta incômoda: será que parte da resistência não nasce justamente porque esse modelo dificulta um tipo de anonimato que existe hoje? Não afirmo que essa seja a motivação de todos os críticos. Há pessoas que discordam da proposta por convicções legítimas. Mas também me parece razoável questionar se alguns dos discursos mais inflamados não escondem uma preocupação menos confessável.
A ironia é evidente: acusa-se o banheiro unissex de incentivar uma perversão que já acontece nos banheiros tradicionais. A diferença é que, no modelo unissex de cabines individuais, esse tipo de prática tende a encontrar muito menos oportunidades.
Nesse contexto, o Projeto de Lei nº 2.861/2026, que endurece as penas para atos obscenos em banheiros públicos, revela uma contradição. Se o objetivo é combater essas práticas, talvez a discussão não devesse se limitar ao aumento das penas, mas também considerar soluções arquitetônicas que reduzam as oportunidades para que elas ocorram.
No fim das contas, talvez o verdadeiro debate não seja sobre perversão. Talvez seja sobre quem realmente perde quando um banheiro deixa de oferecer anonimato e passa a privilegiar privacidade, circulação e segurança para todos.