Defender a polícia não significa defender qualquer atitude praticada por um policial. Pelo contrário: quem realmente valoriza a instituição policial entende que sua força está justamente no cumprimento da lei. Um policial que prende, imobiliza ou utiliza os meios necessários dentro das normas está exercendo sua função. Já aquele que agride, humilha ou abusa do poder que recebeu do Estado comete um desvio que pode configurar crime.
A verdadeira essência da polícia está resumida no princípio de “proteger e servir”. A autoridade concedida a um agente público não existe para colocá-lo acima dos cidadãos, mas para permitir que ele cumpra uma missão de proteção da sociedade. Quando essa autoridade é usada para intimidar, violentar ou demonstrar superioridade, a própria instituição perde credibilidade.
Um dos maiores problemas atuais é a normalização desses comportamentos. Parte da sociedade e até alguns integrantes das próprias corporações passaram a tratar abusos como demonstrações de força ou como símbolos de combate à criminalidade. Essa lógica é perigosa porque transforma atos ilegais em algo aceitável. Combater criminosos não dá ao policial autorização para agir como um criminoso.
Em alguns casos, os próprios agentes acabam produzindo provas contra si mesmos ao transformar ações questionáveis em conteúdo para redes sociais. A fala atribuída ao policial envolvido no caso de Goiás — “Polícia aqui mata mais que o capeta. Ninguém encara polícia aqui no Goiás, não. Quem é você para encarar a polícia?” — demonstra uma visão preocupante sobre o papel do Estado e da autoridade policial. Uma declaração desse tipo não fortalece a polícia; pelo contrário, reforça a ideia de que o poder estaria acima da lei.
Outro ponto que merece reflexão é a transformação da imagem policial em ferramenta de marketing pessoal e eleitoral. A farda e o cargo público possuem um peso simbólico enorme perante a sociedade. Quando utilizados em redes sociais para autopromoção, busca por engajamento ou construção de uma imagem de autoridade pessoal, surge um debate necessário sobre os limites entre comunicação pública e aproveitamento indevido da função.
A situação se torna ainda mais complexa quando alguns profissionais utilizam a imagem associada ao cargo para obter benefícios comerciais ou produzir conteúdos que exploram a própria identidade policial como elemento de atração. A questão não é apenas moral, mas também envolve o debate sobre possíveis conflitos entre a função pública, a imagem institucional e interesses privados.
O caso de policiais que utilizam a farda, a autoridade e a notoriedade conquistada pelo cargo para produzir conteúdos de natureza sexual explícita também levanta questionamentos sobre a compatibilidade entre a exposição pessoal e a representação de uma instituição pública. O problema não está na vida privada do indivíduo, mas no uso da imagem vinculada ao Estado e à função policial como instrumento de promoção ou obtenção de vantagens.
Uma polícia forte não é aquela que causa medo; é aquela que conquista respeito. O cidadão precisa confiar no policial porque sabe que ele seguirá a lei, não porque teme uma possível violência. Defender a polícia de verdade é defender profissionais que honram a farda, denunciar abusos e impedir que poucos agentes prejudiquem a imagem de uma instituição essencial para a sociedade.
A autoridade policial só tem valor quando está acompanhada de responsabilidade. Sem isso, a força deixa de ser proteção e passa a ser apenas abuso de poder.