Geral Fim da credibilidade
Atualmente, ninguém quer falar mal de alguém
O fim da autoridade ou apenas o excesso de opinião?
14/08/2026 03h10 Atualizada há 12 horas
Por: Opinião, crítica e análise

As recentes alfinetadas de Mara Maravilha contra Xuxa reacenderam um fenômeno que se tornou comum na era das redes sociais: pessoas julgando o trabalho de outras como se fossem a referência máxima no assunto. Mara construiu sua trajetória na televisão brasileira, mas nunca alcançou o mesmo impacto, influência e longevidade de Xuxa como apresentadora infantil. Ainda assim, sente-se à vontade para avaliar a carreira da colega de forma contundente.

O caso não é isolado. Basta ligar a televisão para encontrar programas de fofoca em que apresentadores passam horas analisando a carreira de atores, cantores, diretores e influenciadores. Criticam apresentações musicais sem nunca terem gravado um álbum de sucesso. Julgam interpretações de atores premiados sem jamais terem construído uma carreira artística relevante. Fazem avaliações sobre novelas produzidas por grandes emissoras, embora seus próprios programas dificilmente tenham o mesmo alcance, investimento ou reconhecimento.

É claro que toda obra está sujeita à crítica. A crítica séria é importante para qualquer área. O problema surge quando a opinião passa a valer mais do que o conhecimento.

Um bom exemplo é o Oscar. Os vencedores não são escolhidos por pessoas aleatórias na internet, mas por milhares de profissionais da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Diretores avaliam diretores. Atores votam em atores. Roteiristas analisam roteiros. São pessoas que conhecem profundamente os critérios técnicos da profissão, mesmo que nem todas tenham alcançado o mesmo sucesso comercial dos indicados. Há uma diferença entre criticar com conhecimento e apenas emitir uma opinião.

A internet democratizou a comunicação, o que trouxe inúmeros benefícios. Hoje qualquer pessoa pode publicar ideias, produzir conteúdo e participar do debate público. Mas essa mesma democratização também criou a falsa impressão de que toda opinião possui o mesmo peso técnico.

Isso fica evidente em diversas situações do cotidiano. Quem nunca estudou Medicina discute com o médico depois de assistir a alguns vídeos na internet. Pessoas sem formação em Direito garantem que conhecem a Constituição melhor do que juízes e advogados. Indivíduos que nunca administraram uma empresa ensinam empresários a gerir negócios milionários. Torcedores afirmam saber mais de futebol do que técnicos campeões. Quem nunca escreveu um livro dá aulas sobre literatura para escritores consagrados. Pessoas sem qualquer formação científica rejeitam pesquisas produzidas por anos de estudo porque encontraram uma postagem que confirma suas crenças.

Nas redes sociais, todos parecem especialistas em tudo. Em poucos minutos, alguém comenta economia, medicina, política, engenharia, educação, cinema e esportes com a mesma convicção. A segurança com que essas opiniões são apresentadas frequentemente supera o conhecimento de quem dedicou décadas ao estudo.

O resultado é um ambiente dominado por análises superficiais, julgamentos precipitados e afirmações feitas sem qualquer compromisso com os fatos. A experiência perde espaço para a popularidade. O estudo passa a valer menos do que o número de seguidores. A autoridade construída ao longo de anos é colocada no mesmo nível de um comentário publicado sem qualquer responsabilidade.

Discordar é saudável. Criticar também. O problema começa quando deixamos de distinguir opinião de conhecimento. Em uma sociedade que trata especialistas e leigos como se falassem com a mesma autoridade sobre qualquer tema, a credibilidade deixa de ser construída pelo mérito e passa a depender apenas de quem fala mais alto.