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Sobreviveu a uma corda cortada, mas morreu em outro acidente: a história de Mayk, o trabalhador que escapou de uma queda de 18 metros
Trabalhador ficou conhecido nacionalmente após ter a corda cortada enquanto limpava um prédio em Curitiba; acusado morreu antes de ser julgado, e Mayk morreu mais de um ano depois em um acidente de moto
10/09/2026 07h00
Por: Opinião, crítica e análise
Imagem: Reprodução/Google Maps

Mayk Gustavo Ribeiro da Silva, 29 anos, teve a corda de segurança cortada enquanto limpava a fachada de um prédio em Curitiba, mas morreu em um acidente de motocicleta, em junho de 2025. O caso ocorreu pouco mais de um ano depois de Mayk sobreviver a uma queda potencialmente fatal, quando estava suspenso a cerca de 18 metros do chão.

O acidente de moto ocorreu na noite de 19 de junho de 2025, no bairro Pinheirinho, em Curitiba. Mayk estava sozinho na motocicleta e morreu no local após bater contra um anteparo. A Polícia Militar informou que não foi possível determinar imediatamente as causas do acidente.

A morte encerrou de forma inesperada a trajetória de um trabalhador que havia sobrevivido a um dos episódios mais incomuns registrados em Curitiba em 2024.

Em março daquele ano, Mayk fazia a limpeza da fachada de um edifício no bairro Água Verde quando Raul Ferreira Pelegrin, morador da cobertura, cortou com uma faca a corda que sustentava o trabalhador, segundo a investigação policial. Mayk estava no sexto andar, a aproximadamente 18 metros do solo. Ele não caiu porque estava conectado a um sistema secundário de segurança.

Corda foi cortada durante trabalho no sexto andar

O episódio aconteceu em 14 de março de 2024. Mayk estava no segundo dia de trabalho naquele prédio e realizava a limpeza da fachada.

Em entrevista ao UOL, ele relatou que percebeu que a corda havia afrouxado e ficou desesperado. O trabalhador só soube depois, quando chegou ao chão, que o morador da cobertura havia cortado a corda. O supervisor teria presenciado o momento. 

Em entrevista ao programa Encontro, da TV Globo, Mayk contou que o treinamento recebido da empresa permitiu que ele utilizasse o sistema de segurança secundário. Ele ficou preso à linha de vida por meio do trava-quedas e conseguiu concluir a descida.

Segundo os advogados de Mayk, Pelegrin teria tentado atingir também a segunda proteção, mas a faca teria quebrado. Essa informação foi apresentada pela defesa da vítima e não deve ser confundida com uma conclusão pericial divulgada pelas autoridades.

Polícia encontrou faca e pedaço da corda

Depois do ataque, a Polícia Militar foi acionada e entrou no apartamento de Pelegrin com autorização do síndico. Segundo informações da investigação divulgadas pelo UOL, os policiais verificaram imagens das câmeras de segurança e constataram que o morador estava dentro do imóvel. A porta precisou ser arrombada.

Na sacada foram encontrados uma faca e um pedaço da corda que havia sido cortada. Pelegrin, então com 41 anos, foi preso em flagrante.  Uma funcionária do morador também chegou a ser presa. Segundo a Polícia Civil, ela teria informado aos policiais que Pelegrin não estava no apartamento. Depois de prestar depoimento, foi liberada. 

Outros trabalhadores relataram ameaças

A investigação apontou que o episódio não teria sido a primeira ameaça feita pelo morador contra trabalhadores do edifício. Funcionários do condomínio disseram à polícia que Pelegrin teria ameaçado cortar as cordas utilizadas pelos trabalhadores caso eles não deixassem o local. Mayk também relatou que outro trabalhador havia sido ameaçado antes de sua corda ser cortada. 

A motivação do ataque, entretanto, não foi esclarecida publicamente. Mayk afirmou que não tinha qualquer desentendimento com Pelegrin e que praticamente não conhecia o morador. Na época, disse que ficou abalado e que não sabia se conseguiria voltar a trabalhar em altura. 

Ministério Público denunciou morador por tentativa de homicídio

Pelegrin foi denunciado pelo Ministério Público do Paraná por tentativa de homicídio. A denúncia considerou que cortar a corda de uma pessoa suspensa a aproximadamente 18 metros do chão poderia provocar sua morte. O caso também envolvia qualificadoras relacionadas ao meio utilizado e à dificuldade de defesa da vítima.

A defesa de Pelegrin apresentou outra interpretação para o episódio. Segundo informações divulgadas pelo UOL, os advogados chegaram a afirmar que trabalhariam com a tese de crime impossível, argumentando que o meio utilizado não seria capaz de produzir o resultado pretendido. A defesa também aguardava perícias na corda e na faca. Pelegrin permaneceu preso preventivamente. Ele, porém, não chegou a ser julgado.

Acusado morreu menos de um mês após a prisão

Raul Ferreira Pelegrin morreu em 5 de abril de 2024, enquanto estava preso. Antes da morte, ele apresentou problemas de saúde e foi encaminhado para atendimento médico. A Polícia Penal informou pneumonia como causa do óbito. A defesa posteriormente afirmou que Pelegrin havia sido agredido dentro da unidade prisional e questionou as circunstâncias do atendimento recebido.

Raul Ferreira Pelegrin, de 41 anos, foi identificado como o morador que cortou a corda - Imagem: Reprodução/Instagram

A Polícia Civil abriu um inquérito para investigar a morte. Segundo informações divulgadas pelo UOL, funcionários da unidade haviam sido informados de uma possível agressão dentro da cela no dia anterior à internação. Pelegrin foi levado para atendimento médico, retornou à unidade e, posteriormente, apresentou dificuldades respiratórias. 

A Polícia Penal informou que, por se tratar de um fato ocorrido dentro de uma cela sem visibilidade permanente dos servidores, os presos que estavam naquele ambiente passaram a integrar a investigação. Pelegrin morreu antes que a acusação contra ele fosse julgada. Portanto, não houve condenação pelo ataque contra Mayk.

Mais de um ano depois, a morte de Mayk

A morte de Mayk ocorreu na madrugada de 20 de junho de 2025, depois de um acidente registrado na noite anterior. Segundo as informações divulgadas à época, ele pilotava uma motocicleta no bairro Pinheirinho quando bateu contra um poste ou outro anteparo. O trabalhador morreu no local.  A Polícia Militar não conseguiu apontar no local o que provocou o acidente. Mayk tinha 29 anos. O corpo foi encaminhado à Polícia Científica e o velório ocorreu em Itanhaém, no litoral de São Paulo, segundo informações divulgadas por veículos que acompanharam o caso.

Não há informação de que o acidente tenha qualquer relação com o episódio ocorrido no prédio em 2024.

Mãe havia pedido que ele deixasse o trabalho em altura

Após a morte de Mayk, a mãe do trabalhador relembrou o episódio de 2024 e contou que havia pedido ao filho que não voltasse a trabalhar em altura. Em entrevista à imprensa, ela relacionou o pedido ao trauma causado pelo episódio anterior.

O caso chamou atenção para a importância dos sistemas de proteção utilizados por trabalhadores que atuam em altura. No episódio de Curitiba, a corda principal foi cortada, mas o sistema secundário permaneceu conectado e impediu a queda.