
Era uma manhã como outra qualquer, mas o pastor João sentiu algo estranho assim que estacionou o carro em frente à igreja. Antes mesmo de descer, percebeu uma figura sentada na calçada, bem na porta. Quando olhou melhor, tomou um susto: era o diabo. Sim, ele mesmo, com aquela aparência que todos imaginam, mas havia algo incomum. Ele estava chorando.
Assustado e curioso, João se aproximou devagar e perguntou:
— O que está acontecendo aqui?
O diabo enxugou os olhos e deu um sorriso amargo.
— Pastor João, eu preciso falar com você… Obrigado por lembrar tanto de mim nos seus cultos. Até me sinto homenageado, já que meu nome é falado mais que o do próprio Deus.
O pastor ficou sem jeito, mas antes que pudesse responder, o diabo continuou:
— Só que eu estou cansado, pastor. Cansado de ser culpado por tudo. Eu sou o diabo, é verdade, mas tem coisa que não é culpa minha, não! As pessoas vivem errando, mentindo, traindo, sendo desonestas… Depois, quando as consequências chegam, jogam tudo nas minhas costas. Elas não assumem o que fazem. É sempre o “Foi o diabo que fez”, “Foi o diabo que me tentou”. Mas e a escolha delas? E o livre-arbítrio? Eu posso até soprar no ouvido, mas quem decide é a pessoa.
O pastor ficou sem palavras. Nunca tinha pensado daquele jeito. Sempre achou mais fácil alertar sobre os perigos do inimigo do que falar sobre a responsabilidade de cada um.
O diabo se levantou e disse:
— Eu sou o pai da mentira, mas hoje estou sendo sincero. Só quero que você diga à sua igreja: parem de me culpar por tudo. Olhem para dentro. Muitas vezes, o pior inimigo de vocês… são vocês mesmos.
Depois disso, ele se foi, e o pastor entrou na igreja com o coração apertado. Naquele dia, sua pregação foi diferente. Ele não falou do diabo. Falou sobre escolhas, sobre caráter, sobre plantar e colher.
E a moral dessa história?
Nem tudo de ruim que acontece na sua vida é culpa do diabo. Às vezes, é só você colhendo aquilo que plantou.