
Em templos cheios ou transmissões ao vivo seguidas por milhões, versículos bíblicos são muitas vezes retirados de seus contextos originais e apresentados de forma isolada. O objetivo? Justificar discursos de intolerância contra minorias, reforçar hierarquias de poder e alimentar o medo em vez da fé.
“O que vemos é o uso da Bíblia como ferramenta de retórica, não de espiritualidade,” afirma o teólogo e sociólogo Marcos L. Andrade, autor de A Fé Que Segrega. “A passagem é lida, interpretada de forma literalista, e aplicada de maneira a validar preconceitos pré-existentes, como se fossem verdades divinas.”
Muitos desses pastores falam de amor, mas condicionam esse amor à obediência irrestrita. Amar, segundo essas pregações, não é acolher, mas corrigir, muitas vezes com dureza. A correção vem disfarçada de salvação, mas sua aplicação prática tem causado dor: exclusão de fiéis LGBTQIA+, culpabilização de mulheres vítimas de violência, ataques a religiões de matriz africana e demonização da ciência.
Em uma análise feita por uma equipe interdisciplinar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), 87 sermões analisados entre 2021 e 2023 mostraram que em mais da metade deles o “pecado” era usado para justificar a intolerância a algum grupo social específico. Em 73% dos casos, os textos bíblicos foram aplicados fora de contexto histórico e teológico.
Os paralelos com as estratégias do nazismo não estão apenas no conteúdo, mas na forma. Goebbels sabia que repetir mensagens simples, emocionais e polarizadoras gerava impacto. “Hoje, muitos líderes religiosos reproduzem exatamente isso”, aponta a jornalista e pesquisadora em comunicação midiática Renata Soares. “Eles criam um inimigo externo — o ‘mundo’, os ‘ímpios’, os ‘liberais’ — e posicionam a igreja como a única salvação. É uma lógica de guerra travestida de missão espiritual.”
O uso de redes sociais amplificou esse efeito. Trechos de vídeos, cuidadosamente editados para causar choque ou comoção, são lançados em plataformas digitais, repetidos em bolhas ideológicas e, aos poucos, transformam discursos de ódio em aparentes defesas da “moral” ou da “família”.
O capital religioso e político. Ao polarizar o discurso, esses pastores aumentam sua base de fiéis mais fiéis — e mais dependentes. Crescem os dízimos, os votos e o poder de barganha com políticos. Em muitos casos, essa aliança gera leis que violam princípios laicos e direitos civis.
“Não se trata de fé. Trata-se de controle. Fé é liberdade. Controle é medo”, resume Andrade.
É fundamental destacar: nem todo pastor adota essa prática. Muitos líderes religiosos trabalham justamente para desconstruir essas interpretações distorcidas. O pastor evangélico João C. Mota, de uma igreja em São Paulo, afirma: “A Bíblia é uma carta de amor. Qualquer uso dela para humilhar, excluir ou odiar é uma traição ao próprio Cristo.”
A manipulação da fé para justificar o ódio é uma das formas mais cruéis de violência simbólica. Quando o púlpito vira palco de propaganda, e não de reflexão, a espiritualidade se transforma em arma. E como a história já mostrou — seja nos anos 1930 ou no presente — o custo disso pode ser alto demais.