O que surpreende — e incomoda — é que ao migrar para a Record TV, o apresentador Gugu Liberato levou consigo o quadro, agora com uma versão “reformulada”. Os trajes estavam um pouco mais comportados, os closes ligeiramente mais discretos, mas a essência permanecia: contato físico, sensualidade explícita e a naturalização da erotização como forma de atrair audiência. Tudo isso em uma emissora controlada pela Igreja Universal do Reino de Deus, liderada por Edir Macedo, e que se apresenta como defensora de “valores cristãos” e da “família tradicional”.
A presença de um quadro como a Banheira do Gugu — ainda que suavizado — na grade da Record evidencia uma contradição gritante entre o discurso moralista da emissora e suas práticas comerciais. Como justificar, sob a ótica cristã que a emissora alega representar, a exibição de um conteúdo com forte apelo sexual em nome da audiência? Como conciliar a defesa da “pureza moral” com a reprodução de um fetiche televisivo travestido de entretenimento?
A resposta é simples e incômoda: a audiência sempre falou mais alto que a coerência. O discurso religioso serviu para vender legitimidade, enquanto a prática seguiu a velha lógica da TV aberta: sensualidade disfarçada, erotização banalizada e apelo comercial acima de qualquer princípio.
Mesmo com roupas mais discretas e linguagem aparentemente mais “amena”, o quadro manteve os elementos simbólicos da erotização: o sabonete como fetiche, o corpo como ferramenta de espetáculo, o toque físico como forma de sugestão. A versão “corporativa” da Banheira do Gugu não retirou o caráter apelativo do conteúdo — apenas o vestiu com uma camada de verniz moral.
E isso torna o episódio ainda mais problemático. Enquanto programas religiosos da própria emissora condenavam o comportamento sexual “exagerado” ou “imoral” de artistas, a grade dominical colocava corpos femininos em posições estratégicas para alimentar o mesmo desejo que condenava. A hipocrisia, portanto, não é só editorial — é estrutural.
Vale lembrar que a Record, assim como o SBT, é uma concessão pública — ou seja, deve obediência aos princípios constitucionais de respeito à dignidade humana, à diversidade cultural e, sobretudo, à proteção da infância. Mesmo que use linguagem religiosa como escudo, a emissora está submetida às mesmas regras que qualquer outra: não erotizar conteúdos acessíveis a crianças e adolescentes, não expor corpos como espetáculo e não promover valores que contradigam a função educativa da comunicação pública.
A versão “gospel” da Banheira do Gugu é, na verdade, um retrato nítido da incoerência da TV brasileira: fala-se em moral, mas vende-se desejo; prega-se família, mas transmite-se fetiche; diz-se defender princípios, mas persegue audiência a qualquer custo.
Enquanto isso, o telespectador — especialmente o mais jovem — segue vulnerável à sexualização velada e à hipocrisia televisiva. A TV pode — e deve — entreter. Mas não pode mais fingir que erotizar corpos em pleno domingo à tarde é apenas diversão. E muito menos quando isso parte de quem prega pureza moral em horário nobre.
Leia mais sobre: TV Aberta e o Legado da Apelação: Quando a Concessão Pública Ignora a Infância
Na Rede Geração, praticamos um tipo de jornalismo que vai além da simples transmissão de fatos. Nosso compromisso é com o jornalismo opinativo, crítico e analítico — uma abordagem que interpreta, contextualiza e posiciona os acontecimentos dentro de um olhar social, político e ético.
Diferente do jornalismo tradicional de viés “neutro”, essa prática não se limita a “ouvir os dois lados” como única obrigação. Isso porque nem todo conflito é equilibrado, nem toda fonte tem o mesmo peso, e nem toda versão dos fatos é legítima. O jornalismo opinativo não é imparcial — ele é responsável.
Jornalismo opinativo assume uma posição diante dos fatos. Não se omite. Não normaliza injustiças. Ele denuncia, aponta caminhos e reconhece o lugar político de onde fala. A opinião é um instrumento de leitura crítica do mundo.
Jornalismo crítico questiona estruturas de poder, revela contradições, analisa contextos históricos e sociais. Ele não reproduz a fala oficial sem checar o que está por trás. Criticar é parte essencial da democracia.
Jornalismo analítico vai além da manchete: explica causas, consequências, interesses envolvidos e omissões convenientes. Ele conecta os pontos e revela o que os discursos oficiais tentam esconder.
Por isso, esse tipo de jornalismo não precisa — e muitas vezes não deve — “ouvir todas as partes” para ser legítimo. Quando há flagrante de violência, quando há documentos, vídeos, depoimentos públicos ou silêncio institucional, o que se exige é responsabilidade, não simetria artificial. Dar “voz ao outro lado” não pode significar ceder espaço para desinformação, racismo, homofobia, machismo, gordofobia, abuso de autoridade etc.
Na Rede Geração, entendemos que o jornalismo é uma ferramenta de transformação. E transformação exige posicionamento.
Nosso conteúdo é opinativo porque temos lado: o lado da justiça.
É crítico porque não aceitamos verdades prontas.
É analítico porque sabemos que o jornalismo não deve apenas contar o que aconteceu, mas explicar por que aconteceu — e para quem interessa.
Os conteúdos de opinião, análise e crítica publicados pela Rede Geração são protegidos por direitos autorais e propriedade intelectual. O uso não autorizado, total ou parcial, especialmente em contextos que distorçam seu sentido ou omitam sua autoria, constitui violação passível de responsabilização civil e criminal. A reprodução indevida poderá resultar em medidas legais e indenizatórias conforme previsto na legislação vigente.