Repense Meu Deus, que Tesão!
A “Banheira Gospel”? Quando a Record Reproduziu a Erotização Televisiva em Nome da Audiência
Durante os anos 1990 e 2000, a Banheira do Gugu tornou-se um dos quadros mais emblemáticos — e controversos — da televisão brasileira. Veiculada originalmente no SBT, a dinâmica era simples: celebridades em trajes de banho se atracavam em uma banheira ensaboada, tentando capturar sabonetes enquanto câmeras exploravam closes de contato corporal, muitas vezes sugerindo conotação sexual. Era entretenimento erotizado em plena tarde de domingo, acessível a crianças e famílias diante da TV.
13/07/2025 14h45 Atualizada há 1 ano
Por: Opinião, crítica e análise

O que surpreende — e incomoda — é que ao migrar para a Record TV, o apresentador Gugu Liberato levou consigo o quadro, agora com uma versão “reformulada”. Os trajes estavam um pouco mais comportados, os closes ligeiramente mais discretos, mas a essência permanecia: contato físico, sensualidade explícita e a naturalização da erotização como forma de atrair audiência. Tudo isso em uma emissora controlada pela Igreja Universal do Reino de Deus, liderada por Edir Macedo, e que se apresenta como defensora de “valores cristãos” e da “família tradicional”.

A Contradição Moral da TV Religiosa

A presença de um quadro como a Banheira do Gugu — ainda que suavizado — na grade da Record evidencia uma contradição gritante entre o discurso moralista da emissora e suas práticas comerciais. Como justificar, sob a ótica cristã que a emissora alega representar, a exibição de um conteúdo com forte apelo sexual em nome da audiência? Como conciliar a defesa da “pureza moral” com a reprodução de um fetiche televisivo travestido de entretenimento?

A resposta é simples e incômoda: a audiência sempre falou mais alto que a coerência. O discurso religioso serviu para vender legitimidade, enquanto a prática seguiu a velha lógica da TV aberta: sensualidade disfarçada, erotização banalizada e apelo comercial acima de qualquer princípio.

Erotização Sutil É Ainda Erotização

Mesmo com roupas mais discretas e linguagem aparentemente mais “amena”, o quadro manteve os elementos simbólicos da erotização: o sabonete como fetiche, o corpo como ferramenta de espetáculo, o toque físico como forma de sugestão. A versão “corporativa” da Banheira do Gugu não retirou o caráter apelativo do conteúdo — apenas o vestiu com uma camada de verniz moral.

E isso torna o episódio ainda mais problemático. Enquanto programas religiosos da própria emissora condenavam o comportamento sexual “exagerado” ou “imoral” de artistas, a grade dominical colocava corpos femininos em posições estratégicas para alimentar o mesmo desejo que condenava. A hipocrisia, portanto, não é só editorial — é estrutural.

Concessão Pública Não É Palco para Incoerência

Vale lembrar que a Record, assim como o SBT, é uma concessão pública — ou seja, deve obediência aos princípios constitucionais de respeito à dignidade humana, à diversidade cultural e, sobretudo, à proteção da infância. Mesmo que use linguagem religiosa como escudo, a emissora está submetida às mesmas regras que qualquer outra: não erotizar conteúdos acessíveis a crianças e adolescentes, não expor corpos como espetáculo e não promover valores que contradigam a função educativa da comunicação pública.

A versão “gospel” da Banheira do Gugu é, na verdade, um retrato nítido da incoerência da TV brasileira: fala-se em moral, mas vende-se desejo; prega-se família, mas transmite-se fetiche; diz-se defender princípios, mas persegue audiência a qualquer custo.

Enquanto isso, o telespectador — especialmente o mais jovem — segue vulnerável à sexualização velada e à hipocrisia televisiva. A TV pode — e deve — entreter. Mas não pode mais fingir que erotizar corpos em pleno domingo à tarde é apenas diversão. E muito menos quando isso parte de quem prega pureza moral em horário nobre.

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