Publicidade

Quem são os professores que viraram produtores de conteúdo adulto

Relatos de ex-professores brasileiros mostram diferentes caminhos para quem decidiu deixar a carreira acadêmica e encontrou no mercado de conteúdo adulto uma alternativa profissional

Por: Opinião, crítica e análise
15/09/2026 às 05h14 Atualizada em 15/09/2026 às 05h47

A carreira acadêmica costuma ser associada a formação contínua, pesquisa e estabilidade intelectual. Para alguns professores brasileiros, porém, a experiência profissional acabou produzindo o efeito contrário: frustração, esgotamento e a decisão de procurar outras formas de sustento. Entre essas alternativas está um mercado que, até pouco tempo atrás, permanecia distante do universo acadêmico: a produção de conteúdo adulto para plataformas digitais.

Os motivos não são iguais. Em alguns casos, aparecem questões financeiras e insatisfação com a carreira. Em outros, a produção de conteúdo surge como uma segunda atividade, relacionada a interesses pessoais ou acadêmicos.

Um dos relatos mais claros dessa ruptura é o de Arthur Cardoso, apresentado pelo UOL em 2025. Ex-professor e pesquisador, ele contou que abandonou o doutorado e a trajetória acadêmica depois de um período de dificuldades profissionais e pessoais. Posteriormente, passou a trabalhar como garoto de programa e produtor de conteúdo adulto.

Segundo Cardoso, a atividade passou a proporcionar uma remuneração superior à que obtinha em sua trajetória anterior. O caso evidencia uma questão que aparece em outros relatos: a possibilidade de encontrar no mercado digital uma renda maior do que aquela disponível em carreiras que exigiram anos de formação.

Quando a docência deixa de ser sustentável

Outro ex-professor universitário, que prefere não revelar sua identidade, descreve uma experiência semelhante de frustração, embora por motivos diferentes. Depois de mais de uma década trabalhando como docente, ele afirma ter chegado ao limite de sua relação com o ensino superior. Sua última experiência foi como tutor de um curso de educação a distância. Segundo seu relato, o pagamento era de aproximadamente R$ 10 por hora. O volume de atividades, entretanto, seria muito superior ao que considerava compatível com uma avaliação pedagógica adequada. Em uma jornada de quatro horas, afirma que poderia ser necessário corrigir aproximadamente 300 atividades.

Veja o canal dele: Clique Aqui

“O problema não era só a quantidade. Era a impossibilidade de avaliar com qualidade. Você deixa de ser professor e vira um carimbador de tarefas.”

A expressão resume sua principal crítica ao modelo: na sua avaliação, o trabalho intelectual do professor teria sido substituído por metas de produtividade.

O custo do trabalho remoto

O professor também questiona a estrutura do trabalho remoto. Computador, conexão de internet e energia elétrica eram custeados pelo próprio trabalhador. Para ele, a modalidade representava uma transferência de parte dos custos operacionais da instituição para o docente.

“Era home office só no nome. A conta ficava toda com a gente.”

O relato não representa necessariamente a realidade de todas as instituições de ensino a distância, mas mostra como um profissional que trabalhou nesse modelo percebeu suas condições de trabalho.

Plágio e inteligência artificial

As maiores divergências, porém, estavam relacionadas à avaliação acadêmica. O ex-professor afirma ter encontrado situações em que trabalhos com sinais evidentes de cópia precisavam ser aceitos. Também relata que o uso de inteligência artificial pelos estudantes era frequentemente tolerado ou pouco questionado. Ele cita situações em que alunos apresentavam trabalhos produzidos com auxílio de ferramentas de IA e até mencionavam esse uso nas referências. Para o ex-docente, o problema ultrapassa a relação entre professor e aluno.

“Que tipo de profissional estamos colocando no mercado de trabalho?”

Sua preocupação é que a flexibilização de critérios de avaliação possa permitir que estudantes concluam sua formação sem desenvolver adequadamente as competências esperadas. Essas afirmações, entretanto, correspondem ao relato individual do professor e não permitem concluir que sejam práticas generalizadas em todo o ensino superior privado ou na modalidade EAD.

O professor autor e o pagamento único

A experiência como produtor de material didático também teria contribuído para a insatisfação. Segundo o professor, um contrato poderia envolver a elaboração de aproximadamente quatro apostilas completas, bancos de questões, fóruns, estudos de caso e outros recursos pedagógicos. O pagamento informado por esse trabalho seria de aproximadamente R$ 4 mil por contrato. Depois de produzido, porém, o material poderia continuar sendo utilizado pela instituição durante anos. Na percepção do professor, havia uma diferença entre o valor intelectual e o tempo de utilização do conteúdo e a remuneração recebida.

“Instituições privadas reciclam nossas aulas, mas ganhamos uma única vez.”

Ele também ressalta que o valor bruto não correspondia necessariamente ao que permanecia com o profissional, já que havia custos tributários e administrativos relacionados à prestação do serviço.

Uma decisão de sobrevivência

O professor afirma que sua saída da docência ocorreu depois de um processo prolongado de desgaste. Ele associa esse período a sobrecarga, baixa remuneração e conflitos relacionados à forma como o ensino superior vinha sendo conduzido. O próprio professor relaciona seu estado emocional a um possível quadro de burnout. Essa é, contudo, uma avaliação pessoal e não deve ser confundida com um diagnóstico médico independente. A partir desse processo, decidiu abandonar a carreira acadêmica e começar a produzir conteúdo adulto. Para ele, a mudança não significa rejeitar a educação.

“Eu não desisti da educação. Ao contrário, ao fazer isso trago como reflexão como a educação está prostituída.”

Ainda sem querer revelar a identidade ou mostrar o rosto, ele afirma que recebe mensagens de pessoas que acompanham seu trabalho e o incentivam a continuar utilizando sua experiência para discutir os problemas que identificou no setor educacional.

Nem todo professor abandona a academia

A trajetória de Thiagson apresenta uma situação diferente. Professor e pesquisador brasileiro, ele desenvolve trabalhos relacionados à música, cultura e sexualidade e também passou a produzir conteúdo adulto. Uma reportagem publicada em 2026 o incluiu entre acadêmicos que conciliam atividades universitárias com a produção de conteúdo para plataformas digitais.

Nesse caso, não há base suficiente para afirmar que o conteúdo adulto surgiu como consequência de insatisfação salarial ou abandono da carreira acadêmica. Sua trajetória representa outro fenômeno: o profissional que mantém uma relação com a universidade enquanto constrói uma segunda atividade profissional na internet. A diferença é importante. Enquanto alguns docentes abandonam a carreira depois de anos de frustração, outros incorporam a produção de conteúdo à própria identidade profissional.

Mais dinheiro, mais autonomia

Um elemento aparece repetidamente nos relatos: a possibilidade de ganhar mais dinheiro e ter maior controle sobre o próprio trabalho. No caso de Arthur Cardoso, essa diferença de remuneração aparece diretamente em seu relato ao UOL.

No caso do professor que prefere permanecer anônimo, a produção de conteúdo adulto passou a representar uma alternativa depois de anos de insatisfação com as condições encontradas no ensino superior.

Já para Thiagson, a relação é menos econômica e mais ligada à interseção entre produção cultural, sexualidade e presença digital.

São trajetórias diferentes que chegam a um ponto semelhante: a internet tornou possível transformar a própria imagem, conhecimento ou experiência em uma fonte direta de renda.

O que esses casos dizem sobre a carreira docente?

Seria exagerado afirmar que existe uma migração generalizada de professores brasileiros para o conteúdo adulto. Os relatos disponíveis são individuais e não permitem estabelecer uma tendência estatística.

Eles, entretanto, levantam uma questão relevante sobre o mercado de trabalho contemporâneo.

Profissionais que passaram anos investindo em formação acadêmica podem encontrar fora da universidade oportunidades de remuneração, autonomia e exposição que não encontraram dentro dela.

No caso dos professores entrevistados ou citados nesta reportagem, a mudança também representa uma ruptura simbólica.

A sala de aula exige conhecimento, formação e responsabilidade. O mercado de conteúdo adulto, por sua vez, transforma atenção, imagem e relacionamento direto com o público em produtos.

Para alguns desses profissionais, a segunda atividade acabou se tornando economicamente mais atraente do que a primeira.

Da vocação à reinvenção

A história desses professores não é apenas sobre conteúdo adulto. É também sobre o que acontece quando uma profissão construída durante anos deixa de oferecer ao profissional aquilo que ele esperava encontrar: remuneração compatível, reconhecimento, autonomia ou condições sustentáveis de trabalho.

Arthur Cardoso encontrou uma nova carreira depois de abandonar o doutorado. O professor que prefere permanecer anônimo transformou sua saída da universidade em uma crítica ao modelo de ensino que conheceu. Thiagson representa uma terceira possibilidade: continuar ligado à academia enquanto explora novas formas de produção e renda na internet.

No fim, as histórias são diferentes, mas partem de uma mesma transformação do mercado de trabalho. A carreira já não precisa seguir uma única linha. Para esses antigos — ou atuais — professores, a internet abriu uma possibilidade que a universidade não conseguiu oferecer.

E, para alguns deles, a mudança significou muito mais do que trocar de emprego: significou abandonar uma identidade profissional construída ao longo de anos e começar outra completamente diferente.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
0
Mais um tarado Há 1 mês

Homem é flagrado se masturbando dentro de ônibus

Começou a circular em grupos de mensagens nesta segunda-feira (3) um vídeo que mostra um homem com as partes íntimas expostas dentro de um ônibus do transporte público de Campos dos Goytacazes.

Polêmica Há 1 mês

A criança queria é desculpa de pedóflilo, afirma ex-repórter, Nova Andressa Uchach do Privacy

Após anos de atuação na televisão, profissional de comunicação decidiu deixar o jornalismo e criar um canal na plataforma Privacy com um nome provocativo: “Prostituição Repórter”. Apesar de reunir conteúdo adulto, incluindo cenas de sexo, o projeto vai muito além do erotismo. A proposta é usar o espaço para compartilhar histórias sobre os bastidores da televisão, traumas vividos ao longo da carreira e reflexões sobre a desvalorização do jornalismo.

Cinema Há 1 mês

Filme:“O silêncio do céu” onde persongem de Carolina Dieckmann é estuprada

Previsto para estrear em setembro, “O silêncio do céu” traz Carolina Dieckmann em cenas fortes e dramáticas. No longa, dirigido por Marco Dutra, a atriz interpreta Diana, uma mulher casada, que é estuprada dentro da própria casa por um desconhecido.

Alerta Há 1 mês

Em 2026, de janeiro a junho: Mais de 10 mil casos de estupro no Brasil, média de 57 casos por dia

Veja os dados:

Estupro de vuneravél Há 1 mês

Ex-ator da Rede Globo e Record Tv preso em flagrante acusado de estuprar criança autista de 5 anos, ao ouvir os girtos pessoas da festa foram até o quarto

Suspeito diz à polícia que passou mal e se confundiu, Caso ocorreu durante celebração em chácara no bairro Goiabal e foi registrado como estupro de vulnerável