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Felinos são os animais que mais praticam relações homossexuais? A ciência desmonta um mito sobre veados e homossexualidade

Uma curiosidade sobre o comportamento sexual dos animais revela como preconceitos humanos, referências culturais e interpretações equivocadas da natureza podem se misturar. Mas será que os felinos realmente lideram esse comportamento no reino animal? E por que os veados acabaram associados à homossexualidade no imaginário popular?

Por: Produção
05/11/2026 às 08h40 Atualizada em 05/11/2026 às 08h53
Felinos são os animais que mais praticam relações homossexuais? A ciência desmonta um mito sobre veados e homossexualidade

Antes de tudo, existe uma correção científica importante: não há evidências que permitam afirmar que os felinos são o grupo de animais que mais pratica relações homossexuais. A ciência já documentou comportamentos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo em centenas de espécies, mas não existe um levantamento comparativo capaz de estabelecer qual grupo ocupa o primeiro lugar.

Isso não significa que a curiosidade seja falsa. Pelo contrário: o comportamento homossexual entre animais é um fenômeno real, documentado e estudado pela zoologia, pela biologia evolutiva e pela etologia.

O que a ciência realmente descobriu sobre os animais

Um dos estudos mais importantes sobre o assunto foi publicado em 2023 na revista científica Nature Communications, por Gómez e colaboradores.

A pesquisa, intitulada The evolution of same-sex sexual behaviour in mammals, investigou a evolução do comportamento sexual entre indivíduos do mesmo sexo em mamíferos, utilizando análises filogenéticas, ou seja, comparações entre espécies considerando suas relações evolutivas.

Os pesquisadores identificaram que esse comportamento não está distribuído aleatoriamente entre os mamíferos. Ele aparece com maior prevalência em determinadas linhagens, especialmente entre os primatas.

Isso é particularmente interessante porque contraria a ideia de que relações sexuais entre indivíduos do mesmo sexo seriam um fenômeno exclusivamente humano ou uma anomalia inexistente na natureza.

O estudo também menciona comportamentos dessa natureza em diferentes grupos de mamíferos, incluindo felinos e cervídeos.

E aqui está uma informação importante para a reportagem: os pesquisadores mencionam que, em gatos selvagens, determinados comportamentos entre indivíduos do mesmo sexo podem estar relacionados a erros na identificação do parceiro. Em outras espécies, como alguns primatas e cervídeos, podem ocorrer como consequência de estados de excitação sexual.

Portanto, observar um comportamento sexual entre dois animais do mesmo sexo não significa necessariamente que eles apresentem uma preferência sexual exclusiva ou permanente por indivíduos do mesmo sexo.

Afinal, os felinos são os campeões da homossexualidade animal?

Não. Pelo menos, não existe comprovação científica disso.

Os felinos apresentam comportamentos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo, mas não há estudos comparativos que demonstrem que gatos, leões ou outros integrantes dessa família sejam os animais que mais praticam esse tipo de comportamento.

A confusão pode surgir porque existem registros de comportamentos homossexuais em diferentes espécies de felinos, incluindo gatos domésticos e selvagens.

Entretanto, a frequência desses comportamentos, suas circunstâncias e suas funções podem variar bastante.

Uma pesquisa publicada em 2024 na revista PLOS ONE, intitulada Same-sex sexual behaviour among mammals is widely observed, yet seldomly reported: Evidence from an online expert survey, trouxe uma descoberta especialmente interessante.

Os pesquisadores entrevistaram especialistas que estudam mamíferos e constataram que:

  • 76,7% dos especialistas participantes já haviam observado comportamentos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo nas espécies que estudavam.

  • Apenas 48,2% daqueles que haviam observado o fenômeno coletavam dados sistematicamente sobre ele.

  • Somente 18,5% dos pesquisadores que o haviam observado tinham publicado trabalhos científicos sobre essas ocorrências.

Além disso, 17 espécies mencionadas pelos especialistas não possuíam registros científicos publicados desse comportamento, segundo o conhecimento dos autores.

Isso demonstra um problema importante: a ausência de publicações científicas não significa necessariamente ausência do comportamento na natureza.

Em outras palavras, existem muito mais registros observacionais do que pesquisas formalmente publicadas.

E os veados? Eles também apresentam comportamentos homossexuais?

Sim! E isso é particularmente interessante para desmontar o estereótipo.

Os cervídeos, família zoológica que inclui veados, cervos e alces, também apresentam comportamentos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo.

O próprio estudo de Gómez e colaboradores (2023) menciona comportamentos dessa natureza em algumas espécies de cervídeos.

Entretanto, é necessário compreender que a ciência diferencia comportamentos sexuais observáveis de orientação sexual.

Uma montada entre dois machos, por exemplo, é um comportamento sexual. Ela não permite concluir, isoladamente, que os animais tenham uma orientação homossexual exclusiva, assim como um comportamento ocasional entre indivíduos de sexos diferentes não determina toda a vida sexual de um animal.

O mais importante é perceber que os veados não são uma exceção: comportamentos homossexuais fazem parte da diversidade comportamental observada no reino animal.

De onde surgiu a associação entre veados e homossexualidade?

Aqui entramos em uma questão cultural bastante curiosa.

No Brasil, a associação entre o animal veado e homens homossexuais é antiga, mas sua origem exata não é consensual.

Uma das hipóteses populares relaciona essa associação ao personagem Bambi, da animação da Disney lançada em 1942.

O personagem é retratado como um animal delicado, sensível e dócil. Posteriormente, essas características foram interpretadas por determinados setores da sociedade a partir de estereótipos de masculinidade e feminilidade.

Entretanto, não há comprovação histórica suficiente de que o filme tenha originado a expressão.

O historiador James N. Green, em sua obra Além do carnaval: a homossexualidade masculina no Brasil do século XX, discute o uso de termos pejorativos como "viado" e sua presença na linguagem popular brasileira desde as primeiras décadas do século XX.

Entre as explicações levantadas para a origem da expressão estão:

  • A associação com o animal: uma possível relação entre características atribuídas aos veados e estereótipos sobre homens homossexuais.

  • A história de uma perseguição policial: uma narrativa segundo a qual homens homossexuais teriam escapado de uma abordagem policial no Rio de Janeiro, sendo comparados a veados por correrem rapidamente.

  • A influência cultural: possíveis associações reforçadas por representações populares e pela circulação de estereótipos.

Nenhuma dessas explicações deve ser apresentada como origem definitivamente comprovada.

É importante também distinguir a grafia: veado é o nome do animal; viado é uma variante popular associada ao uso pejorativo ou ressignificado da palavra.

A pesquisa histórica mostra que a relação entre linguagem, sexualidade e preconceito é mais complexa do que simplesmente atribuir tudo a um desenho animado.

O que essa descoberta nos ensina sobre a natureza?

A natureza não funciona de acordo com as convenções morais criadas pelos seres humanos.

Comportamentos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo já foram documentados em diferentes grupos animais, incluindo mamíferos, aves e outros organismos.

Isso não significa que todos os animais tenham a mesma sexualidade ou que os comportamentos observados sejam equivalentes às identidades humanas.

Significa que a diversidade de comportamentos sexuais é um fenômeno biológico real e muito mais amplo do que algumas interpretações populares costumam admitir.

A ciência não precisa transformar os animais em símbolos de uma causa para reconhecer os fatos.

E talvez a maior ironia dessa história seja justamente esta: enquanto parte da sociedade utiliza o nome de um animal como insulto contra pessoas homossexuais, a própria natureza demonstra que comportamentos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo não são exclusividade humana.

A homossexualidade não é uma invenção humana

A principal conclusão científica é que comportamentos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo fazem parte da diversidade natural do reino animal.

O estudo de Gómez e colaboradores identificou registros em mais de 1.500 espécies animais, abrangendo diferentes grupos de invertebrados e vertebrados.

Os autores também discutem possíveis funções evolutivas desse comportamento, incluindo a manutenção de vínculos sociais e a redução de conflitos.

Portanto, não existe fundamento científico para afirmar que a homossexualidade seja algo contrário à natureza.

E também não existe fundamento para eleger os felinos como campeões desse comportamento.

O verdadeiro mito não é que animais tenham relações homossexuais. Isso está documentado cientificamente. O mito é acreditar que esse comportamento seja exclusivo dos seres humanos ou que exista alguma espécie que possa ser considerada a representante oficial da homossexualidade no reino animal.

Além do comportamento sexual: o que leva os animais a procurarem parceiros do mesmo sexo?

Uma investigação sobre vínculos sociais, hierarquia, cooperação e estratégias evolutivas revela que o comportamento sexual animal é muito mais complexo do que a reprodução.

Existe um aspecto pouco conhecido nessa discussão: nem todo comportamento sexual na natureza tem como finalidade produzir descendentes.

Em algumas espécies, interações sexuais entre indivíduos do mesmo sexo podem desempenhar funções sociais importantes. E isso muda bastante a maneira como os cientistas interpretam esses comportamentos.

Bonobos: sexo também pode ser uma forma de convivência social

Entre os exemplos mais conhecidos estão os bonobos (Pan paniscus), primatas que vivem na África Central.

Nessa espécie, as interações sexuais são parte importante da organização social. Fêmeas podem realizar contato genital entre si, comportamento conhecido na literatura científica como GG rubbing (genito-genital rubbing).

Essas interações podem estar relacionadas à aproximação social, à formação de vínculos e à redução de tensões dentro do grupo.

Isso significa que, para os bonobos, o comportamento sexual não pode ser compreendido apenas pela perspectiva da reprodução.

É uma demonstração de como a sexualidade pode desempenhar diferentes funções na vida social de uma espécie.

Não existe uma única explicação para o comportamento homossexual animal

Os pesquisadores trabalham com diferentes hipóteses para explicar por que comportamentos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo aparecem na natureza.

Entre as possibilidades investigadas estão:

  • Fortalecimento de vínculos: interações sexuais podem contribuir para estabelecer ou manter relações sociais.

  • Redução de conflitos: em determinadas espécies, podem participar de mecanismos de reconciliação e diminuição de tensões.

  • Hierarquia social: algumas interações podem estar associadas a disputas de posição e demonstrações de dominância.

  • Excitação sexual: determinados comportamentos podem ocorrer simplesmente como parte da atividade sexual dos animais, sem necessariamente apresentar uma função social identificável.

  • Contexto ecológico: condições ambientais e características da organização dos grupos podem influenciar a ocorrência desses comportamentos.

É importante destacar que essas hipóteses não se aplicam igualmente a todas as espécies. Não existe uma explicação universal.

Uma pesquisa publicada em janeiro de 2026 na revista Nature Ecology & Evolution, de Coxshall e colaboradores, aprofundou justamente essa questão entre primatas não humanos.

O trabalho investigou como pressões ecológicas e sociais estão relacionadas à ocorrência desses comportamentos, reforçando que fatores ambientais e características das relações entre os indivíduos precisam ser considerados conjuntamente.

Uma questão que merece atenção: quantos comportamentos ainda não foram registrados?

Em 2024, Anderson e colaboradores publicaram uma pesquisa que ajuda a compreender por que ainda sabemos relativamente pouco sobre o assunto.

O levantamento entrevistou especialistas em mamíferos e revelou uma diferença expressiva entre aquilo que os pesquisadores observavam em campo e aquilo que efetivamente chegava às publicações científicas.

Entre os participantes, 76,7% relataram já ter observado comportamentos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo nas espécies estudadas. Entretanto, apenas 18,5% dos que haviam observado esses comportamentos tinham publicado pesquisas específicas sobre o assunto.

Isso levanta uma questão importante: o conhecimento científico disponível não representa necessariamente toda a diversidade comportamental existente na natureza.

Uma última distinção científica

Existe uma diferença entre registrar um comportamento sexual, identificar uma preferência sexual e atribuir uma identidade.

Na zoologia, o termo mais utilizado nesses estudos é same-sex sexual behaviour, traduzido como comportamento sexual entre indivíduos do mesmo sexo.

Isso permite descrever aquilo que efetivamente foi observado, sem atribuir automaticamente aos animais categorias de identidade humana.

Também evita o erro inverso: desconsiderar comportamentos documentados simplesmente porque não podemos determinar como os animais experimentam subjetivamente sua sexualidade.

A ciência avança justamente quando observa, registra e investiga sem transformar expectativas humanas em regras universais para a natureza.

Referências bibliográficas

GÓMEZ, José M.; GÓNZALEZ-MEGÍAS, A.; VERDÚ, M. The evolution of same-sex sexual behaviour in mammals. Nature Communications, v. 14, art. 5719, 2023. DOI: https://doi.org/10.1038/s41467-023-41290-x

ANDERSON, Karyn A. et al. Same-sex sexual behaviour among mammals is widely observed, yet seldomly reported: Evidence from an online expert survey. PLOS ONE, v. 19, n. 6, e0304885, 2024. DOI: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0304885

GREEN, James N. Além do carnaval: a homossexualidade masculina no Brasil do século XX. São Paulo: Editora UNESP, 2000.

COSTA, Geovane Batista da. Pesquisa acadêmica sobre história da homossexualidade e representações sociais no Brasil. Universidade Federal de Juiz de Fora. Disponível em: Consultar documento acadêmico

VASEY, Paul L. Function and phylogeny: the evolution of same-sex sexual behavior in primates. Journal of Psychology & Human Sexuality, v. 18, n. 2-3, p. 215-244, 2007.

MONK, Julia D. et al. An alternative hypothesis for the evolution of same-sex sexual behaviour in animals. Nature Ecology & Evolution, v. 3, p. 1622-1631, 2019.

BAILEY, Nathan W.; ZUK, Marlene. Same-sex sexual behavior and evolution. Trends in Ecology & Evolution, v. 24, n. 8, p. 439-446, 2009.

COXSHALL, Chloë et al. Ecological and social pressures drive same-sex sexual behaviour in non-human primates. Nature Ecology & Evolution, v. 10, p. 330-341, 2026.

ANDERSON, Karyn A. et al. Same-sex sexual behaviour among mammals is widely observed, yet seldomly reported: Evidence from an online expert survey. PLOS ONE, v. 19, n. 6, e0304885, 2024.

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