
Na foto: A área coberta por nossa equipe de reportagem revela, parcialmente, o pênis ereto do criador de conteúdo. A exposição foi feita de forma proposital, ainda que disfarçada, com o objetivo de burlar a moderação do Instagram e estimular a prostituição velada por meio de conotação sexual camuflada.
O que era para ser uma prestação de serviço voltada ao bem-estar e à estética corporal tem se tornado, para muitos, um palco para práticas que flertam com a ilegalidade, a exploração sexual e a desinformação. O caso de um massagista e depilador que viralizou nas redes sociais ao exibir vídeos sexualizados de seus atendimentos, incluindo imagens de genitálias em ereção, levanta sérias questões éticas e legais — especialmente ao se considerar que parte de seu público atendido inclui menores de idade.
A estratégia parece simples e perigosa: atrair seguidores e clientes através da erotização dos serviços. O profissional em questão publica vídeos insinuantes, nos quais expõe partes íntimas dos clientes e, em certos casos, pergunta diretamente se desejam uma “massagem normal ou com finalização” — termo que, no vocabulário velado do submundo da estética, remete a masturbação como encerramento da sessão.
O problema maior, no entanto, não está somente no ato, mas na forma com que tudo isso é disfarçado sob o rótulo de "estética" ou “terapia”. Trata-se, em essência, de uma possível prostituição travestida de procedimento estético, o que descaracteriza completamente as finalidades legais de um serviço de massagem ou depilação profissional.
Tecnicamente, não há uma legislação que regulamente a "massagem sexual" como prática profissional reconhecida no Brasil. Existem profissionais do sexo que oferecem toques eróticos como parte de um serviço consentido entre adultos — o que, embora não seja regulamentado, também não é criminalizado quando feito entre adultos e sem exploração de terceiros.
No entanto, quando essa prática é escondida sob rótulos como “terapia corporal” ou “depilação”, temos um terreno escorregadio. Se o cliente não está ciente da proposta antes da contratação, ou se é induzido ao ato durante o atendimento, isso pode configurar assédio, propaganda enganosa, e até crime contra a dignidade sexual.
Aqui está o ponto mais grave. Ao atender adolescentes e jovens menores de 18 anos, o profissional passa a estar sob o risco de violação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Qualquer conotação sexual envolvendo menores — mesmo com consentimento — é ilegal e configura crime. O simples fato de um adolescente estar num ambiente onde há oferta (explícita ou velada) de práticas sexuais pagas já é uma violação séria.
Nas redes sociais, o massagista utiliza o próprio corpo como ferramenta de marketing: exibe seu físico, sensualiza os toques, aproxima a câmera de partes íntimas dos clientes. É o tipo de conteúdo que ultrapassa os limites da divulgação de serviços profissionais, transformando-se numa vitrine para o erotismo, muitas vezes mascarado.
Não se trata de conservadorismo — trata-se de ética, responsabilidade profissional e proteção ao consumidor, sobretudo aos mais vulneráveis. A normalização desse tipo de abordagem enfraquece o trabalho sério de terapeutas corporais, fisioterapeutas, esteticistas e profissionais da saúde que prezam pela ciência e pelo bem-estar.
As plataformas digitais parecem, por ora, fazer vista grossa. O conteúdo sobrevive, acumula curtidas e novos clientes. A omissão das autoridades e a ausência de regulamentação clara sobre práticas limítrofes criam o ambiente perfeito para a expansão de práticas ilícitas ou, no mínimo, profundamente antiéticas.
Ao final, a pergunta que fica é: quem está protegendo o cliente, o adolescente e a própria imagem da estética profissional? A banalização do erotismo como ferramenta de venda, especialmente quando não há transparência sobre o serviço prestado, não apenas coloca em risco os envolvidos — mas normaliza práticas que beiram o crime.
Enquanto isso, os conselhos profissionais e órgãos fiscalizadores permanecem inertes. É hora de discutir com seriedade os limites entre sexualidade, estética, marketing e exploração. A estética não pode ser usada como fachada para práticas sexuais disfarçadas, especialmente quando isso envolve vulneráveis.
Profissionais éticos, sérios e comprometidos com a saúde e o cuidado do corpo devem se levantar contra essa banalização. O silêncio, nesse caso, é cúmplice da violência velada que se pratica em nome do prazer e do lucro.