
A denúncia chegou à nossa equipe por meio de um print feito no final de março, revelando a oferta explícita da comercialização do registro profissional em stories. Ao buscarmos o perfil que publicou o conteúdo, constatamos que ele já não existe mais, o que levanta ainda mais suspeitas: exclusão estratégica para apagar rastros ou ação tardia de moderação por parte da plataforma?
O CREF não é um item comercial. É um registro profissional regulamentado por lei, exigido para o exercício da profissão de educador físico em academias, escolas, clubes e outros espaços. Ele garante que o profissional tenha formação adequada, ética e conhecimento técnico para atuar com a saúde e o corpo humano.
Transformá-lo em objeto de comércio é subverter totalmente seu propósito e abrir espaço para a atuação de pessoas despreparadas, colocando em risco direto a saúde e integridade física da população — especialmente de jovens e alunos iniciantes.
O uso dos stories para divulgar a venda de CREFs escancara um problema cada vez mais frequente: o Instagram está se tornando um território fértil para negócios ilegais mascarados por estética profissional e aparência de autoridade.
A prática é simples: perfis se dizem “consultores”, “agentes” ou “assessores”, oferecem CREFs sem exigência de curso superior ou validam diplomas falsos, tudo via direct message. Sem fiscalização digital eficaz, a rede social se transforma numa feira paralela de títulos, certificações e documentos forjados.
E quando questionado, o Instagram geralmente responde com frases genéricas como “não identificamos violação das diretrizes comunitárias”. O problema? A plataforma parece confundir liberdade de expressão com liberdade de comercializar crimes.
Ao não agir com agilidade e rigor diante de conteúdos que promovem a prática criminosa da falsificação de registros profissionais, o Instagram não apenas falha com sua responsabilidade — ele se torna cúmplice da desinformação e da ilegalidade.
Se a Meta consegue remover automaticamente conteúdos que mencionam temas sensíveis como política, sexualidade e até palavras-chave relacionadas à saúde mental, por que não há a mesma eficiência quando se trata de falsificação de documentos e usurpação de funções profissionais?
Enquanto alguns tentam “comprar” o direito de atuar na área sem qualquer formação, milhares de profissionais da Educação Física investem anos em graduação, estágios, cursos complementares, além de arcar com as anuidades do conselho e seguir as normas éticas da profissão.
A venda de CREFs é uma afronta direta à sua trajetória, à segurança dos alunos e à credibilidade da própria profissão. Trata-se de uma fraude que mina a legitimidade do trabalho sério em nome da conveniência e do lucro fácil.
O caso revelado por meio do print é apenas a ponta do iceberg. A venda de CREFs (e de outros documentos profissionais) está sendo normalizada por meio de linguagem informal, estética clean, e promessas sedutoras como “resolvemos tudo para você”. Essa prática não só coloca em risco a saúde de milhares de pessoas, como traz consequências criminais para quem compra e vende.
E o Instagram? Permanece, em muitos casos, como um megafone de ilegalidades sem qualquer autorregulação eficaz.
A venda de registros profissionais como o CREF é crime. E a plataforma que permite sua divulgação, sem agir com rigor e velocidade, precisa ser cobrada — técnica, ética e juridicamente.
Se a Meta quer ser levada a sério como uma empresa global comprometida com segurança digital, deve deixar de ser hospedeira de fraudes e passar a ser guardiã da legalidade.
Até lá, seguimos diante de uma triste constatação: a ética profissional virou produto, e o Instagram, balcão de feira.