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Corregedoria da Polícia Militar instaurou Inquérito para apurar “gemidão” em viatura: a banalização do poder dentro da segurança pública

O episódio ocorrido na madrugada do dia 2 de julho, envolvendo uma viatura da 24ª Companhia Independente de Polícia Militar (CIPM) em Itupiranga, sudeste do Pará, ultrapassa os limites do “inusitado” para revelar algo muito mais preocupante: o crescente desprezo por ética, decoro e responsabilidade dentro de instituições que deveriam representar a ordem e o respeito à lei.

Por: Opinião, crítica e análise
13/07/2025 às 02h51 Atualizada em 13/07/2025 às 03h15

Sons de cunho sexual, emitidos via rádio oficial da Polícia Militar — um canal que deveria ser exclusivamente utilizado para operações táticas, emergências e comunicação séria entre os agentes — provocaram constrangimento e perplexidade entre os operadores de comunicação. O caso está sendo investigado pela Corregedoria por possível infração disciplinar e penal militar, mas, além da punição pontual, o episódio exige uma reflexão mais profunda sobre os limites da autoridade e o uso da estrutura pública.

O que acontece quando o policial esquece o que significa farda?

O rádio policial não é um brinquedo. É uma ferramenta de trabalho, mantida com recursos públicos, e usada para a coordenação de ações de segurança, repressão ao crime e atendimento de urgências da população. Ao usá-lo para transmitir sons sexuais — sejam reais ou simulados — os envolvidos ridicularizam a própria instituição que juraram honrar.

Mais do que um erro de conduta, trata-se de uma distorção do papel do agente público. A viatura deixa de ser símbolo de presença e segurança, para virar piada. O rádio, em vez de instrumento de ordem, se torna palco de desrespeito. E com isso, a população, que já sofre com a sensação de abandono e violência, perde mais um pouco da confiança que ainda tenta depositar na polícia.

Desvio de conduta não pode ser tratado como brincadeira

A expressão “ato inusitado” usada nos relatórios e manchetes não deve ser confundida com “ato leve”. O que aconteceu não é apenas uma “gafe” interna ou uma “brincadeira de mau gosto” — é, potencialmente, crime militar, além de falta ética gravíssima.

O Código Penal Militar e o Regulamento Disciplinar da PM são claros ao estabelecer que o uso indevido de equipamentos oficiais, o desrespeito à imagem da corporação, e o ato atentatório à disciplina e hierarquia podem resultar em punições que vão desde advertência até exclusão da força. E devem resultar.

Porque tolerar esse tipo de conduta é autorizar a erosão silenciosa da autoridade policial.

O servidor público é reflexo do Estado que queremos

A Polícia Militar é uma das instituições mais visíveis do poder público. Sua presença nas ruas, sua postura, e até o modo como fala ao rádio têm peso simbólico. Cada atitude de um agente fardado é observada com atenção — especialmente num país como o Brasil, onde a segurança pública vive sob constante tensão.

Quando um policial militar, em serviço, dentro de uma viatura paga com dinheiro público, transmite sons sexuais por rádio oficial, ele não está apenas “quebrando o decoro”. Ele está dizendo, com todas as letras: não levo meu cargo a sério, não respeito minha farda, e acho que estou acima da disciplina.

Uma polícia que brinca com o rádio, amanhã brinca com a bala?

A pergunta pode parecer dura, mas é necessária. Porque quem banaliza a comunicação institucional hoje, pode banalizar o uso da força amanhã. A frouxidão ética é sempre o primeiro passo para a violência não controlada, o abuso de autoridade e o descaso com a população.

Por isso, a resposta da Corregedoria precisa ser exemplar. Não basta uma advertência ou uma nota de repúdio. É preciso punição com transparência e firmeza, para que se reafirme o que deveria ser óbvio: a farda exige postura, a função exige responsabilidade, e o rádio da PM não é playground.

No fim das contas, não é sobre sexo no rádio. É sobre o tipo de servidor público que estamos formando, tolerando e promovendo. E se a PM quiser seguir sendo respeitada, precisa lembrar que respeito não se exige com armas, mas se conquista com honra.

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