O vídeo da câmera corporal do policial militar da ROTA, Marcus Augusto Costa Mendes, que matou o policial civil Rafael Moura, de 38 anos, na última sexta-feira (11), escancara mais do que um erro trágico: revela o caos, o despreparo e a cultura de arrogância que ainda imperam nas forças de segurança pública no Brasil.
As imagens, registradas em uma viela de uma comunidade na zona sul de São Paulo, mostram o momento exato em que os dois agentes se encontram antes dos disparos fatais. Moura, sem colete à prova de balas, sequer teve a chance de reagir — nem como profissional, nem como cidadão.
E aí surge a pergunta incômoda: por que policiais civis seguem atuando sem colete à prova de balas?
É negligência? É descaso institucional? Ou pior: é o reflexo de uma arrogância internaizada, onde se acredita que a autoridade do distintivo basta para garantir a sobrevivência?
Seja qual for a resposta, o fato é inaceitável. Em um país onde a violência é endêmica e onde confrontos armados fazem parte da rotina policial, a ausência de equipamentos de proteção básica é mais que um erro: é suicídio institucional.
Mas não é só isso. A cena do assassinato de um policial por outro escancara algo ainda mais alarmante: o despreparo dos militares, que em muitas ocasiões agem mais como soldados em guerra do que como agentes de segurança pública.
No calor dos acontecimentos, uma frase dita por um policial civil viralizou: ele se referiu ao colega da Polícia Militar como “comédia”. A expressão, carregada de desprezo, reflete o clima de rivalidade entre as corporações — um racha institucional que, além de ser improdutivo, custa vidas.
Essa desconfiança mútua, esse desprezo velado, essa “comédia trágica” entre civis e militares mostra que o verdadeiro inimigo nem sempre está do lado de fora. Quando policiais enxergam outros policiais como ameaça, a segurança pública deixa de existir.
A morte de Rafael Moura não foi causada por criminosos. Foi causada por uma corporação que não protege seus próprios membros. Foi causada por outro policial, treinado para atirar antes de perguntar. Foi causada por um sistema que alimenta rivalidades históricas entre a Polícia Civil e a Militar — duas instituições que, na prática, disputam poder em vez de combater o crime juntas.
Enquanto isso, os criminosos seguem livres. Mandam nas comunidades, se armam melhor, organizam seus próprios sistemas de “justiça” e controle. Tudo isso diante de forças de segurança que não conseguem sequer se reconhecer como aliados.
A segurança pública no Brasil está falida — não apenas por falta de recursos, mas por falta de inteligência, de estratégia e de humanidade.
Se policiais seguem morrendo nas mãos de outros policiais, quem poderá se sentir seguro?

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