
Nos últimos meses, moradores de diversos bairros têm manifestado questionamentos consistentes sobre o funcionamento das unidades operadas por empresa licitada pela Prefeitura. O principal alvo das críticas é a forma de pagamento: somente em dinheiro vivo. O problema não é apenas a inconveniência da exigência de cédulas físicas — em um tempo em que até medigos já aceitam PIX ou cartão — mas a total ausência de um sistema de rastreabilidade e fiscalização efetiva sobre o que está sendo arrecadado e, principalmente, entregue.
O Restaurante Popular de Maringá, conhecido carinhosamente como "Bandeijão", foi criado com o nobre objetivo de garantir alimentação de qualidade e preço acessível à população. Idealmente, é um equipamento público fundamental para a segurança alimentar de centenas de pessoas em situação de vulnerabilidade. No entanto, o que deveria ser um exemplo de política pública eficiente e transparente, tem sido palco de dúvidas, indignação e possíveis falhas graves de gestão.
A falta de comprovação eletrônica de vendas e o controle manual dos cupons, feito pelos próprios atendentes da empresa contratada, são pontos críticos. Em uma licitação pública, o contrato deve prever mecanismos objetivos de controle, prestação de contas e fiscalização por parte da administração. Sem isso, como garantir que o número de refeições pagas condiz com o que foi efetivamente servido? Como impedir desvios ou manipulação de dados?
Em algumas sedes dos bairros, onde o "Bandeijão" atende, moradores relatam que os alimentos se esgotam antes das 12h15, apenas uma hora e quinze minutos após a abertura. Isso levanta a suspeita de que a quantidade de refeições fornecida seja inferior à prevista no contrato licitado. Em um serviço público, esse tipo de incerteza é inadmissível.
Causa espanto o silêncio da Câmara Municipal diante de um tema tão sensível. Os vereadores, eleitos para representar os interesses da população e fiscalizar os atos do Executivo, têm sido omissos. Até o momento, não há conhecimento de requerimentos formais pedindo informações sobre o contrato, nem audiências públicas para ouvir a população afetada. A atuação do Legislativo deveria ser proativa, e não reativa, ainda mais diante de denúncias que tocam em questões como dinheiro público, alimentação e dignidade humana.
Atualmente, a atuação da maioria dos vereadores de Maringá tem deixado a desejar — e não apenas por sua omissão diante do caos no Restaurante Popular. Diversas propostas apresentadas na Câmara Municipal são inconstitucionais, fora da alçada do Legislativo municipal, o que gera um volume de trabalho desnecessário, consome recursos públicos e desvia o foco do que realmente importa. Em vez de fiscalizar contratos e cobrar transparência, alguns parlamentares se ocupam em tentar ampliar o quadro de servidores com projetos incoerentes, que deveriam ser tratados por deputados estaduais ou federais. Pior: há vereadores denunciados por crimes em projetos apresentados, o que fragiliza ainda mais a credibilidade da casa. O resultado é um Legislativo mais preocupado com agendas pessoais do que com a fiscalização da máquina pública — e, nesse cenário, a população continua à margem, esperando por respostas que não vêm.
A Prefeitura de Maringá também precisa se posicionar com mais firmeza. Justificar a forma de pagamento em dinheiro como uma "opção operacional" é desprezar o princípio da transparência e da responsabilidade com o uso dos recursos públicos. Em tempos em que a digitalização de serviços públicos avança, a insistência em um modelo arcaico e passível de falhas levanta sérias suspeitas sobre a lisura do processo.
É dever da Prefeitura:
Garantir meios eletrônicos de pagamento e emissão de notas fiscais para rastreabilidade.
Fiscalizar in loco a entrega das refeições, com controle de entrada e saída.
Tornar público o contrato com a empresa licitada e suas cláusulas.
Realizar auditorias regulares com participação da sociedade civil.
Prestar contas, de forma periódica, sobre a execução do serviço.
O "Bandeijão" é mais do que um restaurante: é um símbolo de dignidade. É onde trabalhadores informais, aposentados, estudantes e desempregados podem ter acesso a uma refeição completa por um preço justo. Mas essa dignidade também precisa estar presente na gestão — com transparência, respeito ao dinheiro público e escuta ativa da população.
Se a Prefeitura não mudar o rumo, o "Bandeijão" corre o risco de se transformar em um retrato da velha política: contratos obscuros, falta de fiscalização e desrespeito à população mais carente. Maringá merece mais. E os cidadãos, que pagam impostos e confiam nas instituições, exigem um restaurante popular que funcione para o povo — e não apenas para os cofres de empresas licitadas.
A denuncia foi registrada por um morador no MP-PR:


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