Publicidade

Luto pelo Espiritismo

Morreu o Espiritismo que me ensinou a amar?

Por: Opinião, crítica e análise
26/07/2026 às 20h07
Luto pelo Espiritismo

Hoje, escrevo não para anunciar o desencarne de uma pessoa, mas para lamentar aquilo que, aos meus olhos, parece ser o falecimento de um ideal.

Morreu, em muitos lugares, o Espiritismo que um dia acolheu os cansados da intolerância religiosa, os feridos pela hipocrisia, os decepcionados com falsos profetas e os que buscavam, acima de tudo, compreender Deus pela razão, pela fé e pela caridade.

Não morreu a Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec.

Não morreu o Evangelho de Jesus.

Morreu, infelizmente, parte da prática de muitos que dizem representá-los.

Esta não é uma crítica à Doutrina. Pelo contrário. É uma defesa dela.

Porque a Doutrina Espírita jamais pertenceu aos homens. Ela pertence aos princípios ensinados por Jesus e organizados por Allan Kardec.

E justamente por amar esses princípios, dói assistir ao caminho que muitos centros espíritas e muitos espíritas parecem estar percorrendo.

O Espiritismo nunca foi uma religião para julgar.

Allan Kardec escreveu em O Evangelho Segundo o Espiritismo:

"Fora da caridade não há salvação."
(Capítulo XV)

É significativo que Kardec não tenha escrito:

Fora da política...

Fora da ideologia...

Fora do julgamento...

Fora da condenação...

Ele escreveu:

Fora da caridade não há salvação.

Essa frase resume toda a essência da Doutrina.

E talvez justamente por isso seja tão doloroso perceber que, em muitos ambientes, a caridade tornou-se seletiva.

A caridade virou agenda.

Hoje, muitos acreditam que fazer caridade resume-se a participar de uma mesa mediúnica.

É claro que o atendimento espiritual possui enorme valor dentro da Doutrina.

Mas a caridade nunca foi limitada ao intercâmbio mediúnico.

Jesus nunca restringiu a caridade aos mortos.

Ao contrário.

Quando descreveu o Juízo Final, afirmou:

"Porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era estrangeiro e me hospedastes; estava nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; preso e fostes ver-me."

Mateus 25:35-36

Percebe-se que Jesus fala dos vivos.

Dos encarnados.

Daquele que sente fome.

Daquele que sofre.

Daquele que está abandonado.

Daquele que está preso.

Inclusive do preso.

Não apenas do espírito desencarnado.

Kardec comenta essa passagem em O Evangelho Segundo o Espiritismo mostrando que a verdadeira caridade não consiste apenas na esmola, mas na benevolência, na indulgência e no perdão.

A caridade acontece todos os dias.

Em casa.

Na rua.

No trabalho.

Na internet.

No modo como tratamos quem pensa diferente.

No respeito ao próximo.

Na misericórdia.

Quando espíritas pedem a morte de alguém...

Talvez este seja um dos maiores sinais do afastamento do Evangelho.

Hoje é comum encontrar pessoas que se dizem espíritas repetindo frases como:

"Bandido bom é bandido morto."

Mas em qual página do Evangelho Jesus ensinou isso?

Em qual obra Allan Kardec escreveu isso?

Em nenhuma.

Pelo contrário.

O quinto mandamento afirma:

"Não matarás."

Êxodo 20:13

O mandamento não acrescenta exceções.

Não diz:

"Não matarás, exceto..."

É um princípio moral.

Ao mesmo tempo, o Espiritismo reconhece o livre-arbítrio.

Em O Livro dos Espíritos, questões 843 a 872, Kardec aborda justamente a liberdade moral do ser humano. Cada espírito escolhe seus caminhos e responde pelas consequências de seus atos perante as leis divinas.

Quem pratica um crime deve responder por ele.

Mas responder perante a Justiça.

O próprio apóstolo Paulo ensina que a autoridade civil exerce uma função legítima na aplicação da lei:

"Toda pessoa esteja sujeita às autoridades superiores..."

Romanos 13:1-4

No Brasil, a Constituição não prevê pena de morte para crimes.

Portanto, desejar a execução de alguém não corresponde ao funcionamento da Justiça brasileira nem encontra respaldo no ensinamento de Jesus sobre misericórdia.

O criminoso deve ser preso.

Responder pelos seus atos.

Ter oportunidade de arrependimento.

Ter oportunidade de transformação.

Porque enquanto existe vida, existe possibilidade de mudança.

O Filho Pródigo nunca deixou de ser filho.

A parábola do Filho Pródigo (Lucas 15:11-32) talvez seja uma das maiores respostas de Jesus para os dias atuais.

O filho saiu.

Errou.

Desperdiçou tudo.

Afundou-se na miséria.

Mas o pai nunca deixou de chamá-lo de filho.

Nunca organizou uma multidão para desejar sua morte.

Nunca celebrou sua queda.

Esperou.

Quando o filho decidiu voltar, encontrou braços abertos.

Na tradição cristã, essa parábola revela o amor de Deus por aqueles que se afastam de Seu caminho. O Espiritismo igualmente ensina que todos os Espíritos são destinados ao progresso moral e intelectual, ainda que cada um tenha seu tempo de aprendizado.

Se Deus espera o pecador...

Quem somos nós para desejar sua morte?

Como falar de perdão aos desencarnados?

Há outro ponto que me inquieta profundamente.

Muitos defendem a morte de determinadas pessoas.

Mas quando essas mesmas pessoas desencarnam, desejam recebê-las em reuniões mediúnicas para falar de amor, de perdão e de recomeço.

Não há uma contradição nisso?

Como desejar a morte de alguém e, depois, querer acolhê-lo espiritualmente?

A lógica do Evangelho sempre foi outra.

Primeiro amar.

Depois orientar.

Jamais condenar.

A violência nunca foi linguagem do Evangelho.

Outra tristeza é ver espíritas apoiando agressões praticadas por agentes do Estado (Ex.: policiais agredindo pessoas. Há uma diferença entre mobilização e agressão, até mesmo contra aquele que se perdeu no mundo. Mas o pior é que, hoje, homens que deveriam representar a lei estão atacando trabalhadores e pessoas que não estão cometendo qualquer delito, afastando essas pessoas do caminho de Deus ao gerar ódio, rancor e sentimentos de injustiça por meio de julgamentos inapropriados e desproporcionais, feitos por quem não tem o direito de julgar, tanto perante a lei divina quanto perante a lei dos homens).

É preciso distinguir duas coisas.

Prender é dever legal.

Agressão injustificada é abuso e pode configurar crime, conforme as circunstâncias.

A lei existe para proteger a sociedade.

Mas a violência desnecessária nunca foi ensinada por Jesus.

Quando Pedro sacou a espada para defender Cristo, Jesus respondeu:

"Embainha tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão."

Mateus 26:52

Isso não significa abolir a Justiça.

Significa lembrar que a força deve ser limitada pela lei, pela ética e pela dignidade humana.

A humilhação produz revolta.

A revolta produz ódio.

O ódio perpetua ciclos de violência.

E, mais cedo ou mais tarde, todos precisarão aprender a perdoar.

"Não julgueis."

Vivemos uma época em que muitos desejam ser juízes da alma alheia.

Julgar é uma exclusividade de Deus, pois ele é onipotente, onipresente e oniciente, sabe a verdade que ninguém é capaz de saber. quem julga se equipara a Deus, e comete, básfemea. todo ser humano é pecador, o unico homem que passou nesse mundo sem pecado foi jesus, quando uma pessoa olha para a outra e julga, ela esquece que também é pecador, se equipara a jesus e também comete blasfema. todos somos pecadores, por isso disse, orai e vigia, pois comentemos pecados muitas vezes, sem preceber, quem dirá quando paramos para cuidar da vida do outra, tropeçamos em diversos pecado, sendo a quebra do livre arbitrio o primeiro deles. deus deu uma vida para cada um, para cada um cuidar da sua, com excessão da caridade, mas hoje, caridade nada, mas julgamentos ensinamentos de digitais influencer religioso, falsos profetas, viram a fake news, mais anda dos que cairam nas palavras dos falsos profetas.

Mas Jesus advertiu:

"Não julgueis, para que não sejais julgados."

Mateus 7:1-2

E diante da mulher acusada de adultério afirmou:

"Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que lhe atire uma pedra."

João 8:7

O Espiritismo nunca negou a existência do erro.

Mas sempre ensinou que o objetivo da Lei Divina é a regeneração do Espírito.

Não sua destruição.

Deus, Pátria e Família.

Muito se fala hoje em "Deus, Pátria e Família".

Mas vale uma reflexão.

Deus não pertence a uma única nação.

Ele é Criador de todos os povos.

"Deus faz nascer o seu sol sobre maus e bons."
(Mateus 5:45)

Se Deus é Pai da humanidade, então Sua pátria é toda a criação.

Sua família é a humanidade inteira.

E essa família é formada por pecadores em diferentes graus de evolução.

Todos erramos.

Todos estamos aprendendo.

Todos necessitamos de misericórdia.

Quando transformamos adversários políticos em inimigos absolutos, quando fazemos da fé instrumento de divisão ou da religião uma justificativa para odiar, afastamo-nos do ensinamento central do Evangelho: amar o próximo.

O dinheiro nunca foi o Evangelho.

Outra mudança preocupante é a valorização excessiva da prosperidade material como sinal de bênção espiritual.

Jesus ensinou:

"Não podeis servir a Deus e às riquezas."

Mateus 6:24

Também advertiu:

"Não ajunteis tesouros na terra..."

Mateus 6:19-21

Paulo reforça:

"O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males."

1 Timóteo 6:10

Isso não significa que possuir recursos seja pecado.

O próprio Kardec, diz em uma de suas obras:

O trecho ensina que a riqueza é uma prova e um instrumento que pode ser utilizado para o bem ou para o mal. O problema não está no dinheiro em si, mas no apego, na cobiça, na vaidade e no egoísmo que podem nascer dele.

Por isso, preocupa quando discursos religiosos transformam prosperidade financeira em sinônimo de aprovação divina.

Jesus nunca prometeu riqueza como recompensa pela fé.

Ao contrário, convidou seus discípulos ao desprendimento, ao serviço e ao compromisso com o Reino de Deus.

Centros espíritas e a humildade.

Também é impossível não perceber que muitos ambientes espíritas parecem cada vez mais elitizados.

A simplicidade que marcou os primeiros grupos espíritas muitas vezes cede espaço à aparência, ao status e às divisões sociais.

Entretanto, Kardec ensina repetidamente que o verdadeiro espírita se reconhece pela transformação moral e pelo esforço em dominar suas más inclinações (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XVII – "Sede Perfeitos"), não pela posição social, pelo patrimônio ou pela influência.

A humildade continua sendo uma das maiores virtudes.

Sem ela, o conhecimento transforma-se em orgulho.

O verdadeiro inimigo.

Os cristãos falam do diabo.

Os espíritas preferem falar da influência de Espíritos imperfeitos, obsessores ou trevosos.

Embora as interpretações teológicas sejam diferentes, ambas as tradições alertam para a realidade do mal moral e para a necessidade de vigilância.

O próprio Novo Testamento adverte:

"Acautelai-vos dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores."

Mateus 7:15

E João recomenda:

"Não creiais em todo espírito, mas provai se os espíritos procedem de Deus."

1 João 4:1

No Espiritismo, Kardec dedica O Livro dos Médiuns e diversos trechos de A Gênese à necessidade do discernimento diante da influência dos Espíritos, lembrando que nem toda inspiração possui origem elevada.

Por isso, qualquer mensagem que incentive o ódio, a vingança, a violência, a desumanização ou a perda da fraternidade deve ser examinada com prudência à luz do Evangelho.

Chico Xavier deixou outro caminho.

Chico Xavier costumava afirmar:

"Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim."

Essa frase resume a esperança cristã e espírita.

Ninguém está condenado eternamente ao erro.

Todos podem recomeçar.

E Emmanuel, por meio de Chico Xavier, insistiu repetidas vezes na reforma íntima como o verdadeiro campo de batalha do Espírito: antes de transformar o mundo, é preciso transformar a si mesmo.

O luto.

Esta nota não anuncia a morte da Doutrina Espírita.

A Doutrina permanece viva.

Kardec permanece vivo em suas obras.

O Evangelho continua vivo.

Jesus continua vivo em seus ensinamentos.

O que está em luto é o coração daqueles que veem irmãos substituindo a caridade pela condenação, a misericórdia pela vingança, a humildade pela soberba, o Evangelho pela disputa política, a fraternidade pelo ódio e o amor ao próximo por uma lógica de exclusão.

Se esta nota de falecimento tem alguma esperança, é justamente esta: a de que não seja um atestado definitivo, mas um chamado ao despertar.

Que os espíritas voltem a reconhecer que "fora da caridade não há salvação".

Que os cristãos voltem a reconhecer que amar o inimigo não é uma opção, mas um mandamento (Mateus 5:44).

Que todos nós recordemos que ninguém está acima do erro e que a misericórdia sempre triunfa sobre o juízo (Tiago 2:13).

Se um dia esse Espiritismo da caridade, da humildade, do acolhimento e da reforma íntima voltar a ocupar seu lugar no coração dos homens, então esta nota de falecimento deixará de fazer sentido.

E, nesse dia, não celebraremos uma ressurreição institucional.

Celebraremos o retorno ao Evangelho de Jesus, fundamento maior que inspirou Allan Kardec ao afirmar, de forma tão simples quanto profunda:

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
0
Mais um tarado Há 1 semana

Homem é flagrado se masturbando dentro de ônibus

Começou a circular em grupos de mensagens nesta segunda-feira (3) um vídeo que mostra um homem com as partes íntimas expostas dentro de um ônibus do transporte público de Campos dos Goytacazes.

Polêmica Há 2 semanas

A criança queria é desculpa de pedóflilo, afirma ex-repórter, Nova Andressa Uchach do Privacy

Após anos de atuação na televisão, profissional de comunicação decidiu deixar o jornalismo e criar um canal na plataforma Privacy com um nome provocativo: “Prostituição Repórter”. Apesar de reunir conteúdo adulto, incluindo cenas de sexo, o projeto vai muito além do erotismo. A proposta é usar o espaço para compartilhar histórias sobre os bastidores da televisão, traumas vividos ao longo da carreira e reflexões sobre a desvalorização do jornalismo.

Cinema Há 2 semanas

Filme:“O silêncio do céu” onde persongem de Carolina Dieckmann é estuprada

Previsto para estrear em setembro, “O silêncio do céu” traz Carolina Dieckmann em cenas fortes e dramáticas. No longa, dirigido por Marco Dutra, a atriz interpreta Diana, uma mulher casada, que é estuprada dentro da própria casa por um desconhecido.

Alerta Há 2 semanas

Em 2026, de janeiro a junho: Mais de 10 mil casos de estupro no Brasil, média de 57 casos por dia

Veja os dados:

Estupro de vuneravél Há 2 semanas

Ex-ator da Rede Globo e Record Tv preso em flagrante acusado de estuprar criança autista de 5 anos, ao ouvir os girtos pessoas da festa foram até o quarto

Suspeito diz à polícia que passou mal e se confundiu, Caso ocorreu durante celebração em chácara no bairro Goiabal e foi registrado como estupro de vulnerável