
Segundo o mais recente relatório global do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), entre 2017 e 2023, foram detectadas aproximadamente 175 vítimas de tráfico com a finalidade de remoção de órgãos, em cerca de 25 países diferentes. Isto representa uma fração — cerca de 0,2% — dos casos de tráfico de pessoas detectados globalmente, segundo as estatísticas oficiais.
No Brasil, dados oficiais reunidos entre 2017 e 2020 pelo Polícia Federal (PF) mostram que o número de inquéritos por remoção de órgãos aumentou: saltou de 3 casos em 2017 para 44 em 2020. Contudo, em muitos desses casos não houve indiciados — reflexo da dificuldade de coletar provas robustas.
Ou seja: embora pareça raro nos registros oficiais, o tráfico de órgãos continua ativo — e provavelmente bem maior do que os dados mostram. A subnotificação e a opacidade fazem deste crime um dos mais difíceis de rastrear.
Veja a baixo um filme que mostra essa cruel realidade:
Subnotificação e invisibilidade: muitas vítimas não sabem que foram traficadas para remoção de órgãos — ou vivem sob coação, medo e ameaças, o que impede denúncias. A fragmentação dos sistemas de saúde, segurança e justiça dificulta o rastreamento integrado.
Confusão com outras modalidades de tráfico: frequentemente os casos de remoção de órgãos estão misturados com tráfico para exploração sexual, trabalho escravo, servidão etc. A classificação ambígua torna difícil separar estatísticas específicas.
Falta de prioridade institucional e técnica especializada: a justiça e as polícias muitas vezes não dispõem de recursos, treinamento e cooperação internacional para investigar redes transnacionais com eficácia.
Complexidade internacional: o tráfico de órgãos costuma cruzar fronteiras, envolvendo rotas internacionais, múltiplos países, diferentes legislações — o que torna o rastreamento e punição muito mais difíceis.
Essas barreiras não só distorcem os dados disponíveis como também enfraquecem o combate ao crime, tornando o problema invisível à maior parte das pessoas — e, portanto, mais fácil de persistir.
O que leva um crime tão degradante a continuar existindo, mesmo com risco de exposição e punição? Alguns fatores estruturais explicam essa persistência:
Vulnerabilidades sociais profundas: pobreza, desigualdade, falta de acesso a saúde, migração forçada, desespero econômico — especialmente em contextos de violência, desemprego e fragilidade institucional — tornam pessoas mais suscetíveis a ofertas enganosas.
Lucro alto e demanda crescente: a demanda por transplantes supera amplamente a oferta legal de órgãos. Isso alimenta um mercado ilícito que se beneficia da fragilidade das vítimas.
Organizações criminosas transnacionais complexas: redes que operam em diferentes países, com cooperação internacional, logística sofisticada e influência para lavagem de dinheiro, o que dificulta a desarticulação.
Relativa invisibilidade social: por se tratar de crime com poucas visibilizações midiáticas, uma parte significativa da sociedade sequer suspeita da existência de tais redes — o que reduz pressão pública por investigações e políticas públicas adequadas.
Ou seja: o tráfico de órgãos combina vulnerabilidade social, demanda legítima por transplantes, ganância criminosa e sistema de impunidade — uma equação profundamente perversa, que perpetua o ciclo.
Apesar de haver avanços legislativos e institucionais, os dados mais recentes mostram que o sistema ainda está longe do ideal:
A lei brasileira que trata do tráfico de pessoas com todas as modalidades (incluindo remoção de órgãos) foi sancionada em 2016.
Desde então, o país tem produzido relatórios periódicos para mapear o problema, ainda que com metodologias que reconhecem suas fragilidades.
Em 2025, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) lançou um painel de dados público, buscando centralizar e dar transparência às informações sobre tráfico de pessoas, inclusive utilizando dados de diferentes órgãos.
Mas isso não é suficiente. A abordagem atual revela deficiências:
A fragmentação dos dados entre diferentes órgãos impede uma análise abrangente e impede traçar rotas ou perfis de tráfico.
A cooperação internacional continua insuficiente, especialmente diante de redes que operam em diversos países, o que dificulta investigação e responsabilização.
A invisibilidade social – o tema raramente ganha atenção pública — reduz a pressão por políticas públicas robustas e financiamento adequado às investigações e assistência às vítimas.
Para mudar esse quadro, é essencial que além da repressão, haja políticas estruturais de prevenção: combate à pobreza e desigualdade, garantia de acesso à saúde e assistência social, campanhas de conscientização, proteção às vítimas, e políticas de cooperação internacional.
Quando tratamos desse tema apenas como “casos isolados” ou “histórias de horror”, corremos o risco de naturalizar o que é um problema estrutural. O tráfico de órgãos não é apenas uma notícia chocante — é um sintoma profundo de desigualdades globais, de falhas nos sistemas de saúde e justiça, de vulnerabilidades sociais.
Ao expor essas realidades com dados concretos — como os 175 casos detectados globalmente, o aumento de inquéritos no Brasil, a subnotificação sistemática — contribuímos para tirar o crime das sombras e exigirmos medidas reais.
Mais do que justiça para as vítimas, trata-se de afirmar dignidade humana, proteger quem mais precisa e enfraquecer redes criminosas que lucram com o desespero alheio.